quinta-feira, 24 de setembro de 2020

CARTA À SOCIEDADE AMAPAENSE

 

CARTA À SOCIEDADE AMAPAENSE


Foto: Alinne Brito 

...a todos nós que amamos a negritude, que ousamos criar no dia a dia de nossas vidas espaços de reconciliação e perdão onde deixamos vergonhas, medos e mágoas do passado, e nos seguramos uns nos outros, bem próximos. Somente o ato e a prática de amar a negritude nos permitirá ir além e abraçar o mundo sem a amargura destrutiva e a raiva coletiva corrente. Abraçar uns aos outros apesar das diferenças, além do conflito, em meio à mudança, é um ato de resistência - Bell Hooks

O Coletivo Utopia Negra Amapaense vem a público repudiar toda e qualquer forma de violência praticada contra a população negra, em especial contra os grupos em vulnerabilidade social, como mulheres, LGBTQIA+, moradores das pontes e periferias, quilombolas, ribeirinhos, indígenas.

Nos últimos dias, temos visto o crescimento de comentários nas mídias sociais contendo notícias falsas (fake news), que estão sendo utilizadas com o intuito de descredibilizar, atacar e ridicularizar a luta contra o racismo social, institucional e a violência policial. Tais notícias estão sendo espalhadas por perfis mal intencionados, aparelhados para espalhar mensagens de ódio.

Queremos ressaltar que o caso de violência policial que causou a mobilização dos últimos dias ganhou repercussão nacional e internacional, sendo ainda mais grave por ter sido uma violência praticada por um funcionário público, pago com os nossos impostos. Foi uma agressão covarde contra uma mulher negra, Mãe e cidadã amapaense, que é trabalhadora e paga seus impostos.

Estamos aqui em defesa do direito à vida, direito à liberdade, direito de ir e vir, direito à segurança pública. Defendemos a legalidade, queremos que se façam cumprir as leis. Seja por quem for. As forças policiais não têm o direito de nos matar, de nos humilhar, de nos torturar, de nos marcar como alvos fáceis. Sua missão é servir e proteger, buscar a paz social. Cobramos que as ações de violência policial sejam devidamente apuradas pela corporação e pelos órgãos da justiça amapaense. Cobramos também que seja garantida à vítima e à sua família a proteção necessária contra ameaças vindas das redes sociais e das ruas.

Sociedade amapaense, nós não somos contra a polícia militar e aos servidores públicos que prestam serviço a essa instituição. Uma das reclamações que observamos é que os agentes de segurança pública e da polícia militar precisam de melhores condições de trabalho, precisam de apoio psicológico, o trabalho desses agentes é sobre estresse, logo, é preciso que todas (os) agentes tenham esse acompanhamento semanal, mensal e anual de apoio psicológico, que os nossos funcionários públicos de segurança pública tenham melhores condições de trabalho, e possam oferecer uma melhor qualidade no serviço, assim como, poder cumprir com os compromissos dessas instituições que está previsto na constituição. Os funcionários públicos da segurança pública não são os nossos inimigos – o nosso inimigo é o racismo estrutural.  Não podemos confundir o debate. Precisamos focar no que é necessário e urgente. As nossas propostas para melhorar a vida de todas as pessoas são: É necessário um processo de reestruturação de toda a segurança pública do Estado. É necessário que a polícia militar reconheça que o seu modo operacional está imerso no racismo estrutural. A todas e todos amapaenses dessa terra, o racismo estrutural é uma violência que acaba por hierarquizar as pessoas na ideia de raça, e o racismo como uma tecnologia de dominação está imerso no nosso imaginário, ele norteai a política de segurança pública, o Estado e a mídia local. Logo, reconhecer que a corporação da polícia militar é influenciada pelo racismo estrutural significa assumir uma responsabilidade com a população negra que somos a maioria no Estado do Amapá. E assumir essa responsabilidade requer coragem, e essa coragem exige que façamos uma reunião com o comando militar, secretaria de estado da justiça e segurança pública do amapá e os (as) presidentes da Assembleia Legislativa do Estado do Amapá.

Não iremos aceitar as ameaças que os integrantes da Utopia Negra vêm sofrendo nos últimos dias, que fique escuro iremos tomar todas as medidas jurídicas contra as pessoas que tem nos caluniados, ameaçados e o racismo nos comentários nas nossas redes sociais. Lembrando que racismo é crime. E não iremos baixar a cabeça, pois a nossa luta é justa e lutamos pelos nossos. Pedimos que todos os coletivos e organizações que assinaram a carta de repúdio que compartilhe essa carta a sociedade amapaense.

Amar a negritude como resistência política transforma nossas formas de ver e ser e, portanto, cria as condições necessárias para que nos movamos contra as forças de dominação e morte que tomam as vidas negras – Bell Hooks

 

Utopia Negra - 24 de setembro de 2020

 


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

NOTA DE AGRADECIMENTO E DE CONTINUAÇÃO DO CHAMADO PARA A LUTA ANTIRRACISTA NO AMAPÁ

 

NOTA DE AGRADECIMENTO E DE CONTINUAÇÃO DO CHAMADO PARA A LUTA ANTIRRACISTA NO AMAPÁ 




Nós, Utopia Negra Amapaense, vimos ontem a realização de uma utopia nossa, uma utopia que sempre esteve presente em nós enquanto coletivo, assim como de forma individual em cada componente do nosso grupo, em cada trajetória de todes que já vivenciamos a violência racista da polícia e do estado.

Queremos aqui agradecer a todes que compuseram esse processo de construção e mobilização do ato de ontem, em nome do coletivo Ifé Dudu que junto da gente iniciou esse processo, saudamos a todes. Obrigada a cada coletivo, aos movimentos negros, aos movimentos sociais e culturais que foram essenciais para mobilizarem e termos o resultado que tivemos ontem. Agradecemos a todes que compareceram ontem, nossos irmãos de luta, a cada pessoa que enxergou que a luta antirracista é necessária para uma sociedade mais justa, que essa luta é de todes e é preciso se colocar no front. 


Dessa forma, novamente convocamos todos os coletivos que assinaram a carta de repudio a somar na luta, essa é uma luta contínua, logo, nos próximos dias e meses precisamos fazer um debate sério e público sobre o processo de segurança pública no Estado do Amapá, precisamos pressionar as instituições a nos ouvirem, assim como, a polícia do Estado precisa passar por um processo de reestruturação sobre o seu modo operacional, a policia civil e o Estado precisam colocar como prioridade discussões que envolva o debate sobre o racismo estrutural e nos colocamos a disposição diante das instituições e da sociedade amapaense para fazer esse debate.

Fechamos a Rua Jovino Dinoá por 3 horas. Nessa disputa de narrativas nunca tivemos medo, os inúmeros relatos de ontem são a prova, NÃO É UM CASO ISOLADO e não vão deslegitimar nossa luta! É ancestral e estamos retomando. Nós por nós! Todo poder ao povo preto amapaense!


#NãoFoiUmCasoIsolado e #VidasNegrasImportam

#racismoécrime #racismonão





domingo, 20 de setembro de 2020

Carta de repúdio dos Movimentos Negros Amapaenses


Carta de repúdio dos Movimentos Negros Amapaenses

Diante da barbárie cometida pela PM do Estado do Amapá, nos posicionamos contra a agressão sofrida pela pedagoga Eliane do Espírito Santo da Silva, uma mulher negra. Na noite do dia 19, a pedagoga foi torturada e levada presa ao questionar uma abordagem violenta que a PM fez contra sua família. 

É inaceitável, imoral, criminoso e não, não é um caso isolado! 
O Amapá é o estado que tem a maior taxa de mortos pela polícia!
O Atlas da Violência de 2019 aponta o aumento de 77,7% na taxa de homicídios no Amapá num período de 10 anos. Além disso, aponta que entre as capitais, Macapá ficou em 10º lugar, com 54,1 assassinatos a cada 100 mil habitantes.

Ainda no ano de 2019, segundo o monitor da violência do G1, o Amapá é apontado como estado que lidera o índice de assassinatos pela polícia: 15,1 pessoas a cada 100 mil habitantes. No ano anterior, 2018, o índice foi menor apenas que do Rio de Janeiro.

As políticas de Estado disparam na cabeça da Juventude. Esse alvo tem cor e é a preta. A polícia atua como ferramenta de extermínio. 

Órgãos importantíssimos como a Defensoria Pública, responsável pela democratização da justiça, sofrem com sucateamento.

Qual tem sido as políticas de Estado no combate à tortura, principalmente em um momento em que a democracia sofre ataques constantes?

O Amapá tem uma das polícias que mais mata no país. Quantas situações parecidas com esta aconteceram e não vieram a público?

A periferia sofre com a falta de estrutura, falta de políticas públicas e, sobretudo, com a negligência de uma gestão que trata o povo como lixo!

A violência policial existe e, ao ser registrada em vídeos como esse, choca. Quem vigia os vigias? Quem protege o nosso povo que sofre com a ausência do Estado em políticas públicas, mas é vítima da violência policial quando o fato social força?

Não vamos permitir e exigimos, bem mais do que punição exemplar aos policiais do vídeo. Lutamos por uma nova formatação da nossa Polícia Militar, que sequer entende sobre direitos fundamentais do ser humano.

PAREM DE NOS MATAR, DE NOS AGREDIR, DE NOS HUMILHAR!

Assinam esta carta: 
Utopia Negra Amapaense
Observatório IFÉ DUDU 
Frente Pelo Direito à Cidade - Macapá
Uneafro Brasil
CUFA Amapá
Centro de Atividades Sociais da Periferia - CASP 
UNA LGBT+ Amapá
Quilombo SANKOFA
Instituto Amapafrica
Joga na Roda
PSTU - Amapá
PSOL - Amapá 
Elos de Juventude, Mulheres e Diversidade Rede Sustentabilidade- AP
Movimento Mulheres em Luta
Movimento de Mulheres Negras do Amapá 
Comissão da Igualdade Racial OAB - Amapá 
Ciranda Materna
Baba egbe akoroidan 
Baba egbe ni ilê Asè ogbá Ayra jadile
Associação Nacional de História Seção Amapá - Anpuh AP
Comissão Pastoral da Terra Amapá - CPT AP
Instituto Mocambo
Rede Amazônia Negra
Frente Marginal e Arte Negra
Ilê Axé Ogbá Ayra Jhadile 
Núcleo de Estudos em Etnopolítica e Territorialidades da Amazônia- NETTA/UNIFAP
Núcleo de Estudos e Pesquisas em Antropologia Visual, da Imagem e do Som - NAIMI/UNIFAP
Cia. de Dança Afro Barakà - ACDAB
Alinne Brito - Resistência Feminista/PSOL
Laboratório de Estudos da História Social do Trabalho na Amazônia - LEHSTAM/UNIFAP
Laboratório de Estudos Etnográficos - LAET/UNIFAP
CEPRES - Centro de Estudos Sobre Religião, Religiosidades e Politicas Públicas/UNIFAP
Negritude Socialista Brasileira - NSB/Amapá
Levante Popular da Juventude - Amapá
Direitos Sociais, Cultura e Cidadania - DSCC/UNIFAP
CAPTTA - Coletivo de Artistas, Produtores e Técnicos em Teatro do Amapá
Movimento Cultural Ancestrais 
Associação Cultural Raimundo Ladislau
Marabaixo da Juventude e Marabaixo do Arthur Sacaca
Associação Recreativa e Cultural Menino Deus
Negritude Socialista Brasileira do Estado do Amapá
Associação de Moradores do Quilombo do Curiaú
Associação Folclórica São Benedito e Santo Antônio do Coração
Grupo de Batuque e Marabaixo Filhos do Curiaú
Fulanas - Negras da Amazônia Brasileira
Associação Folclórica Marabaixo do Pavão
Associação de Mulheres Mãe Venina do Quilombo do Curiaú
Associação Agricultores do Quilombo do Curiaú
#8M Amapá
Clínica de Direitos Humanos da UNIFAP -CdH/UNIFAP
Núcleo de Estudos Afro-brasileiros - NEAB/UNIFAP
PT Amapá
Coletivo de Mulheres do PT 
SINSEPEAP
Coletivo de Ogas e Ekedes 
Movimento de Juventude de Terreiro
Terreiro de São José de Mina 
Pai Alexandre (OBÁ HUMBÍ)
Tambores Tucujus
Oniruuru
Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no Amapá da OAB
Ilê Axé Obá Oladeji
Casa do Rei
Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará  - CEDENPA
Rede Fulanas NAB - Negras da Amazônia Brasileira
Coalizão Negra por Direitos
Movimento Negro Unificado - MNU
Coletivo de Entidades Negras - CONEN
Rufar das Açucenas
Articulação de Mulheres Negras Brasileiras - AMNB
Instituto de Mulheres Negras do Amapá - IMENA
Geledés -  Instituto da Mulher Negra
Marcha das Mulheres Negras de SP
Bamidelê - Organização de Mulheres Negras na Paraíba 
Programa de Pós-Graduação em Estudos de Fronteira - PPGEF/UNIFAP
Programa de Apoio a Migrantes e Refugiados - PAMER/UNIFAP
Odara Instituto da Mulher Negra
Rede de Mulheres Negras do Nordeste
Fórum Permanente da Igualdade Racial
Pastoral Afro Brasileira
Pastoral Afro Brasileira  Regional Norte II  - Amapá
Associação Artística Cultural Cia Casa Circo
Programa de Pós-Graduação em História - PPGH/UNIFAP
Coletivo Marias 
Interfaces Femininas 
Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras (es) - ANPSINEP
SINDUFAP
Diretório Central dos Estudantes - DCE/UEAP
Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo
Pastoral Fé e Política da Arquidiocese de São Paulo
Pastoral da Educação do Regional Sul1 da CNBB


sábado, 8 de agosto de 2020

CARTA A UM HOMEM NEGRO (VULGO MEU PAI): ABANDONO E PATERNIDADE NEGRA

 CARTA A UM HOMEM NEGRO (VULGO MEU PAI): ABANDONO E PATERNIDADE NEGRA


Por - Dàgalágbà (nome fictício)


Fonte: Moonlight 


Demorei demais para colocar na centralidade dos meus pensamentos e sentimentos a figura da paternidade de quem chamo de “doador de esperma”, ao longo da minha vida, essa figura sempre foi marcada por um paradoxo: A negação de sua existência e a constante lembrança reafirmada quase que diariamente pela minha família “Dàgalágbà , não seja como teu pai!”. Afinal, quem era essa figura quase que mítica? Como vou deixar de ser alguém, que eu não convivo e não conhecia. Minha masculinidade sempre foi em oposição a dele. Mas, primeiro, eu precisava nos últimos anos levar a sério quem seria esse homem na minha vida e no meu imaginário. Meu pai, é tudo, que a sociedade brasileira espera de um homem negro. Irei descrever esse imaginário não para fortalecê-lo, mas para questioná-lo. Ele é um homem negro que foi condicionado a ter várias mulheres, para além de ter, ele engravidou várias mulheres, e depois as abandonava. Dentro desse movimento, sou fruto do abandono.

Ele foi condicionado e foi negada o direito de estudar e foi empurrado ao trabalho braçal (ao trabalho subalterno) — que todos os dias homens negros são empurrados a ocupar esses lugares. Outro fator meu pai era violento e alcoólatra. Das poucas lembranças que tenho dele, todas são marcados pela violência. O presente do meu pai é uma marca na minha perna de uma fivela de um cinto que rasgou minha pele. Minha mãe certa vez tentando se defender, teve que esfaqueá-lo, e a imagem do sangue nunca saiu da minha cabeça. Talvez amigos (as) e familiares não saibam disso.

No início do texto escrevi “minha masculinidade sempre foi posta em oposição a do meu pai”, logo, meu acesso a esse homem negro sempre perpassou pela narrativa das mulheres que me criaram. Demorei anos para ter consciência disso. Essa ideia estava no meu inconsciente, e isso atravessava toda a minha vida e me influencia. Saber disso é doloroso, porque, minhas atitudes acabariam por machucar pessoas e a mim mesmo. Nada justifica, aqui entra a responsabilidade. Logo, como posso me criar como “homem” sendo que perpassa por essa “referência”? E o mais doloroso como posso eu fazer um resgate de uma negritude sendo que essa é atravessada por dor, abandono e sofrimento? Na música " Negro Drama" escreve Racionais MC's “Um bastardo mais um filho pardo sem pai”, nesses anos, levei a sério no processo de entender em profundidade esse homem negro que atravessa toda a minha história. Falando, com amigos sobre isso, umas das marcas do racismo e no período da escravidão era que os homens negros tinham que suportar tudo e não demonstrar fraqueza diante das mulheres negras e dos seus filhos, e umas das coisas da violência da escravidão foi colocar os homens negros como férteis e reprodutores — tinham metas de engravidar as mulheres por ano.

Depois disso, comecei a analisar com quais mulheres ele se relacionou — das mulheres que fiquei sabendo todas eram brancas. Outra questão surge: porque os homens negros procuram mulheres brancas para se relacionar, e, ao mesmo tempo, evidenciar publicamente? Como já ficou mais do que batido, só ver os homens negros de sucesso, quase sempre tem uma mulher branca para chamar de sua. Como se isso fosse fazer esquecer da sua condição de homem negro, ou mesmo, por um momento entrar em um campo onde ele poderia ser ele mesmo e não ficar diante da sua dor e angústia pelas violências que são postas aos homens negros — por que nós adiamos tanto, a tal ponto, de não conseguirmos nos relacionar com as mulheres negras. Penso, talvez, que esse movimento dele era poder em um momento escapar das violências que ele sofreu, e poder se encobrir na pele que inconscientemente ele desejava passar aos seus filhos — mal sabe o que ele produziu. Me empurrou ou boa parte dos seus filhos na ideologia do branqueamento - se relacionar com pessoas brancas para clarear a família.

E que a minha própria família, tentou, mesmo que de forma inconsciente, fazer um apagamento de qualquer relação com a minha família por parte desse homem negro — eu não sei quem são os pais dele, não sei quem são os meus avós.

Como essa violência colonial acaba por influenciar nossos comportamentos e reproduzirmos a falta de responsabilidade com as mulheres negras, o abandono, mas do que uma palavra - o abandono- deixa marcas reais e profundas nos nossos psicológicos e no campo do sentimento, tanto para os filhos como para as mulheres. Nesse ponto, entra uma pergunta, como devo responsabilizar o meu pai como um homem negro? Do qual as atitudes desse deixou marcas de dor? Dos movimentos que fiz e ainda faço é: fazer uma leitura sobre a história do homem negro nesse país, entender os comportamentos desse homem negro sobre a influência da colonização, como isso me atravessa, e entender em profundidade que muitas vezes ele mesmo não sabe que está reproduzindo essas violências coloniais, isso significa dizer que irei retirar a responsabilidade dele ou mesmo justificar, jamais! Ele é responsável pelas dores causadas nas pessoas (nos seus filhos e nas mulheres com quem se relaciona) e pelo abandono.

Depois de caminhar pela minha própria dor, o que vou fazer com isso? Primeiro é absorver tudo o que isso significa, analisar os meus próprios comportamentos — e assumir a minha responsabilidade — e tentar acabar essa lógica colonial que os homens negros são condicionados. Essa lógica da crueldade que fere tanto os homens negros, como as pessoas com quem a gente se relaciona. Em vivendo de amor escreve Bell Hooks “Nós negros temos sido profundamente feridos, como nos diz, “feridos até o coração", e essa ferida emocional que carregamos afeta nossa capacidade de sentir e consequentemente, de amar. Somos um povo ferido. Feridos naquele lugar que poderia conhecer o amor, que estaria amando.” Continua “[...] muitos negros estabeleceram relações familiares espelhadas na brutalidade que conheceram na época da escravidão. [...] Estavam assim se utilizando dos mesmos métodos brutais que os senhores de engenho usaram contra eles [...] escravos revelam que sua sobrevivência estava muitas vezes determinada por sua capacidade de reprimir as emoções.”

Diante disso, o que nós homens negros vamos fazer, como vamos reinventar a nossa masculinidade e a paternidade negra? O que sinto é medo, medo de não ser como o meu pai, e novamente eu acabo por cair em um paradoxo, como vou me reinventar ou resgatar uma negritude que perpassa por quem me acusou muita dor!


REFERÊNCIAS 

Site: https://www.geledes.org.br/o-segredo-dos-escravos-reprodutores/ acessado dia 06 de agosto de 2020. 

HOOKS, B. Vivendo de amor. In: WERNECK, J. O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro: Pallas: Criola, 2000. p. 197.

Palavra em iorubá Dàgalágbà - Tornar-se um homem adulto

domingo, 26 de julho de 2020

[LIVE] Mulheres negras, feminicídio e políticas públicas


Arte: Higor Pereira

No dia 31 de julho, às 19h, ao vivo no Facebook da Utopia Negra - Enegrecendo a política amapaense (facebook.com/UtopiaNegraAp), vai rolar a live “Mulheres Negras, feminicídio e Políticas públicas”. Alícia Miranda (Graduanda em História, atuante no coletivo Não vão nos calar e colaboradora da Frente de Apoio Emergencial às Mulheres vítimas de violência doméstica) e Alzira Nogueira (mulher negra feminista, com atuação política na luta antirracista e em defesa dos direitos das mulheres, com formação em Serviço Social e mestrado em Sociologia) vão conduzir o debate. Imperdível!

Aproveitamos a oportunidade para também informar que estamos com uma vakinha online (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/utopia-negra-amapaense), com o objetivo de arrecadarmos recursos para o aprimoramento do nosso site (http://www.utopianegra.com). O site tem como objetivo principal promover uma leitura sobre a realidade do Amapá através da perspectiva da negritude amapaense, fomentar debates que envolvam a população preta do estado, bem como criar uma rede de contatos com outras pessoas negras, a fim de construirmos juntos um quilombo virtual, atuante, qualificado e de mostrar toda a potencia da juventude preta do Amapá.

#NósPorNós #MulheresNegras #NegritudeAmapaense

sábado, 25 de julho de 2020

"GRITARAM-ME NEGRA" - DIA INTERNACIONAL DA MULHER NEGRA LATINO-AMERICANA E CARIBENHA (25 DE JULHO)

             

 VIVA TEREZA DE BENGUELA, VIVA AS MULHERES NEGRAS LATINAS E CARIBENHAS!
                                  MULHERES NEGRAS NÃO PAREM DE LUTAR!

Por Benedita Alves 

 


Imagem: Andressa Almeida

 

No Brasil e no mundo, mulheres negras revolucionárias sempre estão balançando e rompendo com estruturas da opressão racista. O legado de nossas ancestrais ecoa com força em mais um 25 de julho. Desde 1992, há exatamente 28 anos, um grupo de mulheres negras, que não se sentiam representadas pelas políticas e falas do feminismo branco, realizou na cidade de São Domingos, na República Dominicana, o Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas, onde também nasceu o Dia Internacional da Mulher Negra Latina e Caribenha.

Hoje é um dia de luta Internacional, um dia especial, um símbolo que nossas companheiras latinas e caribenhas construíram para nos armar, inspirar e poder seguir a luta. Nossa griot Teresa de Benguela homenageada desde 2014 no 25 de julho, por sua coragem e determinação no enfrentamento ao sistema colonial escravocrata, liderou por duas décadas o Quilombo do Piolho ou do Quariterêre, atual cidade de Cuiabá. Uma líder, sem dúvidas. Criou um parlamento local, organizou a produção de armas, a colheita e o plantio de alimentos e chefiou a fabricação de tecidos vendidos nas vilas próximas. Seu exemplo de resistência nos enche de orgulho e admiração.

Hoje em dia, milhões de Terezas lideram suas casas, lutam pelo pão de cada dia para si e seus filhos, enfrentam o quartinho da empregada e o elevador de serviço pra receber 70% menos do que uma mulher branca, de acordo com dados do IPEA de 2016. Nós, mulheres negras, sofremos com o sexismo e a hipersexualização dos nossos corpos, somos as maiores vítimas de violência obstétrica, abuso sexual e homicídio – de acordo com o Mapa da Violência 2016, os homicídios de mulheres negras aumentaram 54%, enquanto os homicídios de brancas reduziram em dez anos no Brasil. Em nosso Estado (Amapá), a juventude periférica enfrenta a mira do racismo policial dia após dia e, assustadoramente, É A POLÍCIA QUE MAIS MATA NO BRASIL. 

 A griot Lélia Gonzalez denunciou em 1982 o “Lugar de Negro” que antes vivia nas senzala às favelas, cortiços, porões, invasões, alagados e conjuntos habitacionais dos dias de hoje. No Brasil e no mundo, gente rica tem espaço amplo, proteção, natureza, alimentação de qualidade, saúde, acesso a variados bens culturais, informacionais, profissionais, enquanto o povo negro amarga seu “exílio na periferia” e as políticas do péssimo ensino. Divisão de raça e classe. Na mesma trincheira estão nossas parentes lutando há mais de 500 anos contra a colonização de suas crenças, modos de vida, por seus territórios e pela floresta em pé. A carne mais barata, como protestou nossa mestra Elza Soares, é a que vai de graça pro subemprego, pra prisão e pro hospital psiquiátrico.

E por isso lutamos! 

A população negra vem crescendo em nosso país nos dados do IBGE. Segundo este instituto, desde 2015 brancos não são a maioria (nunca foram). Nós já sabíamos que o processo de branqueamento afasta a cultura negra e indígena das crianças seja na escola, TV, revistas, igrejas convencionais, etc. Isso vem mudando? Sim, mas não podemos comemorar. Na escola ainda se reforçam estereótipos de negro ladrão, a mulata morena e o índio preguiçoso. Por que será que não se identificavam antes? Afinal de contas, quem quer ser reconhecido por isso?

O racismo é sustentado pelo padrão branco dominante, sofremos violências em sequência, mas estamos aqui para falar das negritudes e etnias marginalizadas. Na América Latina e no Caribe, 200 milhões de pessoas se identificam como afrodescendentes, segundo a Associação Mujeres Afro, em 2016. A ONU afirma que dos 25 países com os maiores índices de feminicídio do mundo, 15 ficam na América Latina e no Caribe.

O dia de hoje é sobre tudo isso, era isso que nossas ancestrais latinas e caribenhas estavam falando. Elas disseram que estavam sofrendo e estavam denunciando a violência histórica do Estado e o feminismo racista. Quando Victoria Santa Cruz, afroperuana multiartista intelectual, lançou para o mundo o poema e performance “Gritaram-me Negra”, alertou o quanto o racismo pode nos fazer cair, nos fazer recuar, retroceder, gerando sofrimento e estranhamento dos nossos corpos desde criança. Mas ao mesmo tempo gritou que ser Negra! não era aquilo que o branco falava. E reinventou o que é ser Negra!   A dor deve se tornar luta contra o sistema capitalista e nossa história de resistência, orgulho!

Não desiste negra, não desiste!

 

1 - Na África Ocidental o griot é uma pessoa que tem por vocação preservar e transmitir as histórias, conhecimentos, canções e mitos do seu povo.


terça-feira, 21 de julho de 2020

Enegrecer a política brasileira: a atuação de mulheres negras no legislativo


Arte: Higor Pereira
 
É com satisfação que a utopia negra amapaense vem a público fazer a divulgação de um evento muito especial: no dia 04 de agosto de 2020, às 20:00h, pela nossa página no Facebook (Facebook.com/UtopiaNegraAp), promoveremos uma live com a presença da Deputada Estadual Mônica Francisco (RJ). Na oportunidade, ela conversará conosco sobre como tem sido sua atuação política no legislativo, enquanto uma mulher negra eleita. Mônica Francisco tem um longo histórico de luta, organização, militância e atuou lado a lado com a Marielle Franco, que é um símbolo de luta, inspiração e representatividade para tod@s nós. O legado de Marielle permanece nas nossas memórias e é força que nos inspira a continuar lutando por justiça e por um outro mundo possível à população negra periférica. 
Gostaríamos de destacar também que esse intercâmbio será mediado por Luana Darby, uma mulher negra amazônica e intelectual preta amapaense. Logo, a utopia negra vê esse intercâmbio como uma forma de aprendizado e compartilhamento de experiências em dois contextos regionais, e claro, sempre considerando as especificidades e potências das populações negras que vivem nas periferias das grandes cidades, seja no sudeste, seja na Amazônia.

Aproveitamos a oportunidade para também informar que estamos com uma vakinha online (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/utopia-negra-amapaense), com o objetivo de arrecadarmos recursos para o aprimoramento do nosso site (http://www.utopianegra.com). O site tem como objetivo principal promover uma leitura sobre a realidade do Amapá através da perspectiva da negritude amapaense, fomentar debates que envolvam a população preta do estado, bem como criar uma rede de contatos com outras pessoas negras, a fim de construirmos juntos um quilombo virtual, atuante, qualificado e de mostrar toda a potencia da juventude preta do Amapá.

No mais, gostaríamos de agradecer publicamente pela disponibilidade da Deputada Mônica Francisco e fazer um chamamento a tod@s que acreditam num outro mundo possível à população negra desse país a virem somar com a gente. 
#NósPorNós #MulheresNegrasNaPolítica #NegritudeAmapaense

MAIS INFORMAÇÕES SOBRE A DEPUTADA MÔNICA FRANCISCO:

“A atuação da deputada Mônica Francisco é pautada por sua luta de 30 anos em defesa dos direitos humanos, na defesa da economia solidária, da agroecologia, no combate à violência contra mulheres, na promoção da igualdade de gêneros e contra o racismo.
Com uma vida forjada na luta e na fé, a deputada nascida e criada no Morro do Borel, na Zona Norte do Rio, chega aos 50 anos com uma trajetória construída no sobe e desce dos becos da favela, entre o trabalho como doméstica ou operária, os estudos, a família, a militância e a igreja, onde vive uma fé que se manifesta em defesa dos mais pobres e vulneráveis.
Na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, a deputada eleita com mais de 40 mil votos, é reconhecida pela capacidade de dialogar, a firmeza nas posições, a coerência na defesa do que acredita.
Ocupando a Alerj
Presidente da Comissão de Trabalho, Legislação e Seguridade Social
Vice-presidente da Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos de Raça, Cor, Etnia, Religião e Procedência Nacional
Vice-presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito do Feminicídio
Membros das Comissões de Saúde, de Segurança Alimentar, de Assuntos Municipais e de Mulheres
Suplente das comissões de Constituição e Justiça, de Direitos Humanos, de Agricultura Pecuária e Políticas Rural, Agrária e Pesqueira, da Criança e do Adolescente.
Mônica Francisco foi assessora da vereadora Marielle Franco, que fora brutalmente assassinada em 2018. Antes, trabalhou no Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), organização criada por Herbert de Souza, o Betinho. O trabalho com projetos no Ibase despertou o interesse em estudar Ciências Sociais, curso que ingressou através da Política de Cotas, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 2008. Além de cientista social, Mônica é pastora evangélica e segue defendendo o respeito e a diversidade, para que a vida seja melhor para todos.
Em 2017 tive a honra e o privilégio de integrar a equipe do mandato da minha amiga Marielle Franco, onde construímos políticas públicas para as mulheres, para o nosso povo preto e para a população favelada. Mari foi arrancada de nós por quem trabalha com uma política baseada no medo e na dor. Em 2017 tive a honra e o privilégio de integrar a equipe do mandato da minha amiga Marielle Franco, onde construímos políticas públicas para as mulheres, para o nosso povo preto e para a população favelada.” Fonte: https://monicafrancisco.com.br/monica-francisco/

[Live] Educação antirracista: a educação escolar quilombola como ponta de lança


Arte: @euandressa.a

Adrian Barbosa*
Higor Pereira**

No dia 16 de julho de 2020 (quinta-feira), fizemos o debate sobre as potencialidades da experiência de educação escolar quilombola desenvolvida no Quilombo São Pedro dos Bois (município de Macapá) para pensarmos num projeto de educação antirracista. Foi muito massa. O vídeo completo pode ser assistido no link abaixo:

Live do projeto Utopia Negra - enegrecendo a política amapaense. Adrian Barbosa e Higor Pereira debaterão o tema "Educação antirracista: a educação escolar quilombola como ponta de lança"

Publicado por Utopia negra - Enegrecendo a política amapaense em Quinta-feira, 16 de julho de 2020


*Mestranda em Sociologia e Antropologia (UFPA). Quilombola da comunidade São Roque do Ambé.
** Mestrando em História (Unifap). Agente da Comissão Pastoral da Terra. 

segunda-feira, 20 de julho de 2020

(Re)significando espaços: vidas negras importam e a Fortaleza de São José de Macapá

Organização: movimento negro do Amapá


Arte: Rodrigo


O que conhecemos hoje como Amazônia Brasileira passou por um longo e violento processo de invasões promovido por diversas nações europeias. Franceses, holandeses, espanhóis, ingleses e portugueses disputaram o controle desse vasto território no decorrer de séculos. À essa disputa sucedeu uma colonização sanguinária feita por Portugal. Ao longo do século XVIII, a coroa portuguesa passou a utilizar diversas estratégias de caráter militar para assegurar o domínio sobre os territórios invadidos. No processo de invasão e colonização dessas terras Portugal explorou a mão de obra de negros e indígenas através do desumano sistema escravocrata.

Nesse contexto, foram erguidas Fortalezas, Fortes e Fortins, a fim de manter a posse dos territórios diante de outros possíveis invasores. Segundo Machado (1989, p. 104): “A partir desse momento, configura-se um novo sistema de controle territorial que se apoiava em pelo menos quatro elementos:  as fortificações; o povoamento nuclear; a criação de unidades administrativas; e o conhecimento geográfico do território.” A Fortaleza de São José de Macapá (FSJM) começou a ser projetada nesse cenário. É uma fortificação luso-brasileira, construída entre 1764 e 1782, com o objetivo de proteger as fronteiras do Cabo Norte, atual estado do Amapá. A FSJM tem seu traçado feito pelo engenheiro militar Henrique Galuzzi, com as colaborações do Arquiteto Antônio José Landi e pelos engenheiros militares João de Groenfeld e Domingos Sambucetti.

Imagem: planta da Vila de São José de Macapá, 1761

Tecnicamente, a FSJM é uma harmonia entre o traçado arquitetônico italiano de fortificação e o estilo francês Vauban de 8º ordem.  Obedece o padrão de fortaleza abaluartada de quatro faces, constituído por um núcleo principal quadrado com espessas cortinas e quatro vértices em baluartes pentagonais com 14 (quatorze) canhoneiras lançantes, delimitando a praça fortificada. Essa é a maior fortificação construída pelos portugueses na América do Sul, em metros quadrados.

Levantar essas muralhas custou o sangue e suor de indígenas e negros na condição de escravizados. Isso, no entanto, não ocorreu sem a constante resistência desses povos durante todo o processo. Segundo Camilo (2003, p. 135):

As fugas realizavam-se em bandos formados por negros e negras de particulares e da Câmara, que tinham ao seu favor o meio físico da região, pois a bacia hidrográfica do Amapá é formada por lagos, furos, igarapés e pelos rios Oiapoque, que separa o Brasil da Guiana Francesa, o Cassiporé, o Calçoene e o Araguari, que é formado por muitas cachoeiras propícias à formação de quilombos.

Nesses espaços de resistência, negros, negras e indígenas podiam viver e lutar pela liberdade. Plantavam, comercializavam e tentavam de todas as formas permanecerem livres, apesar das muitas tentativas dos portugueses em recaptura-los para novamente explora-los na construção da fortaleza ou em atividades agrícolas.

Embora a fortaleza tenha sido construída com objetivos puramente colonizadores e ter sido instrumento de exploração e tortura de negros e indígenas, ao longo das décadas ela tem passado por um processo de ressignificação de seus usos e espaços. Primeiramente, porque ela passou a ser utilizada como um símbolo estatal, ostentado em bandeiras, logomarcas e campanhas relacionadas ao estado do Amapá e à cidade de Macapá. Mas essa ressignificação desponta principalmente pelo fato de que as populações locais têm tornado a FSJM um espaço de domínio popular, capaz de abrigar a pluralidade de identidades coexistentes dentro do Amapá.

Desta maneira ela começa a se desprender de seus sentidos coloniais, passando a ser um Patrimônio Cultural do povo do Amapá. Seus espaços passam a ser utilizados por povos e grupos que tiveram seus ancestrais explorados/marginalizados/invisibilizados naquele mesmo lugar. A Fortaleza, portanto, passa por uma metamorfose de sentidos, e aí se inicia a sua construção enquanto local de articulação social e política de diversos grupos, inclusive símbolo de resistência pelas vozes negras e indígenas.

Os indígenas do povo Wajãpi veem nela a Mairi de suas narrativas cosmológicas, “onde o criador Janejar havia abrigado [e protegido] seus antepassados do cataclisma que eliminou a primeira humanidade” (GALLOIS, 2007, p. 71). Já os negros e negras do Amapá, remanescentes daqueles que foram trazidos à força da África, cantam os ladrões e dançam o Marabaixo dentro daquelas muralhas, em ocasiões como o aniversário da fortificação. Vez ou outra, rola até roda de capoeira ali dentro.

A Fortaleza de São José de Macapá não é mais reconhecida somente como um símbolo de ostentação colonial e opressão. Ela é um patrimônio dinâmico que (re) existe na memória individual e coletiva do povo amapaense, reunindo assim características tanto comuns quanto heterogêneas dentro da diversidade de grupos que com ela interagem durante as gerações que passam.

 

Referências Bibliográficas

BRITO, Carla Marinho. Visualidades da Fortaleza de São José de Macapá em interação com uma escola pública da cidade de Macapá. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais), UFPB, 2013.

CAMILO, Janaína Valéria Pinto. Homens e pedras no desenho das fronteiras: a construção da Fortaleza de São José de Macapá (1764/1782). Dissertação (Mestrado em História), Unicamp, 2003.

CASTRO, Adler Homero Fonseca de. Muralhas de pedra, Canhões de bronze, Homens de ferro: fortificações do Brasil de 1504 a 2006. Rio de Janeiro: Fundação Cultural Exército Brasileiro, 2009.

GALLOIS, Dominique. Gêneses waiãpi, entre diversos e diferentes. Revista de Antropologia, v. 50, nº 1, 2007.

MACHADO, L. Mitos e realidade da Amazônia brasileira no contexto geopolítico internacional (1540-1912). Tese (Doutorado em Geografia Hmana), Universidade de Barcelona, 1989.


AFINAL, O QUE É E QUAL A IMPORTÂNCIA DO FUNDEB?

*Neto Medeiros 


Foto - A crítica 

Para quem não sabe o que é o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação - FUNDEB vou tentar falar de forma simples, para aguçar sua CURIOSIDADE e você BUSCAR mais sobre sua IMPORTÂNCIA E URGÊNCIA: FUNDEB é o Fundo de Desenvolvimento e Manutenção da Educação Básica, que é composto por recursos arrecadados nós três níveis da administração pública, sendo a União (governo federal) contribuinte de 10% do valor total do Fundeb, que parece pouco, mas é extremamente importante para que todas as REDES atinjam o VALOR mínimo nacional por aluno, e haja estabilidade financeira nos investimos dos Estados e municípios na EDUCAÇÃO BÁSICA. Em linhas gerais o FUNDEB tem três finalidades:

1° Pagamento de professores;

2°Financiamento de todos os níveis e modalidades da educação básica

3° Aquisição de equipamentos, construção e manutenção de Escolas.

Sendo assim é importante que o FUNDEB seja tratado com responsabilidade, pois a sua extinção mesmo que transitória, como está descrita na proposta do atual governo, é prejudicial e contribui para que se perpetuem desigualdades, dificuldades e ocorra uma PERVERSA promoção do SUCATEAMENTO da educação PÚBLICA básica, que já enfrenta a décadas DIFICULDADES. Sendo assim, você precisa acompanhar tudo sobre o FUNDEB, pois a educação do seu filho, dos filhos dos seus amigos, sobrinhos, da galerinha da tua Ponte, de geral aí do Quilombo ESTÁ EM JOGO.

O FIM DO PRAZO DE VIGÊNCIA DO FUNDEB É 31 de DEZEMBRO DE 2020

O FUNDEB não é só isso, vamos buscar mais e ficar atentos hoje (20) a partir das 15 horas, pois teremos VOTAÇÃO NA CÂMARA, e o FUNDEB está sob RISCO DE NÃO EXISTIR EM 2021.

Acompanhe!

*Preto e Pedagogo

Servidor Público da Educação do Amapá

#FundebPermanente #Fundeb #educacaobasica #luta



 

 

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Candidaturas negras no Amapá em 2014 e 2018

Nilson Gomes de Oliveira*


Foto: Amapá Digital

O que impede a representatividade de negros e negras na política? Bom, usualmente o tema é abordado pela ausência de representatividade, diversidade e pluralidade étnica. Nesta última década (2011-2020) a crise de representatividade que ficou em destaque, foi a representação política, ou seja, a relação de confiança entre eleitores e candidatos a prefeito, governador, vereadores, deputados estaduais e federais, senadores e presidente.

Isso ficou nítido a partir das jornadas de junho de 2013, com o questionamento sistemático aos políticos profissionais. Essa crise de representação política, esconde uma outra crise de representação. Qual seria? A crise de representação étnico-racial.

A partir disso o sistema de representação política da democracia liberal guarda em si, implicitamente e explicitamente formas de exclusão política que faz fronteira com o racismo institucional. Silvio Almeida diz que o racismo institucional se estabelece como um domínio, utilizando parâmetros discriminatórios baseados na raça, que servem para manter a hegemonia do grupo racial no poder. Nesse sentido, o racismo é dominação.

Do ponto de vista institucional encontramos vários sintomas da exclusão política de negros e negras da política representativa, para a manutenção de um padrão político dominados por homens brancos.

Nas eleições gerais de 1994 a 2010 para governador, deputados federais e estaduais, senador e presidente da república, o sistema de dados da Justiça Eleitoral ao tratar do perfil dos mesmos, não abordava as categorias raça/cor como forma de definir o perfil dos candidatos, constituindo desse modo, omissão institucional para sistematizar um banco de dados de candidaturas negras.  

A lacuna histórica acerca das candidaturas negras, não foi raio em céu azul. As raízes dessa omissão institucional, é derivado das formas de sociabilidade construídas em decorrência da herança colonial, escravocrata e latifundiária do Brasil.

O Tribunal Superior Eleitoral – (TSE) passou a contabilizar candidaturas negras nas eleições gerais, somente a partir de 2014, tendo contabilizado também em 2018.  No caso da Justiça Eleitoral, a terminologia estabelecida para auferir o quantitativo de candidaturas na ótica da raça/cor é: branco (a), pardo (a) e preto (a).

Em 2014 o Brasil registrou 26.174 candidaturas, sendo que apenas 84% foram válidas, portanto, 21.899. O registro de candidaturas de pretos e pretas em 2014 no Brasil foi de 2.422, o que corresponde a 9,25%.

Pardos tiveram 9.158 candidaturas (34,99%) e os brancos tiveram 14.377 candidaturas, sendo a maior fatia do bolo, com 54,93% das candidaturas. Em 2018 o registro de candidaturas foi de 29.085 candidaturas. O registro de candidaturas de pretos e pretas em 2018 foi de 3.160, representando 10,86% do total. Pardos vem logo em seguida com 10.368 registros de candidaturas, correspondendo a 35,7%. Os brancos seguem mantendo o maior número de candidaturas, com 15.241 candidaturas, representando 52,4% do total.

Agora fica um questionamento, e as candidaturas indígenas? Em 2014 foram somente 85 candidaturas indígenas, o que correspondeu na época a 0,05% do total. Nas eleições de 2018 tivemos 133 candidaturas indígenas, o que representou 0,46% do total.

Diante do cenário nacional, como é que funciona a dinâmica das candidaturas de negros e negras no Amapá? Vamos olhar os dados das eleições gerais de 2014 e 2018.

No Amapá em 2014 tivemos 547 registros de candidaturas, sendo que 476 (87,02%) forma consideradas aptas. As candidaturas de pretos e pretas somou 65 registros válidos (11,88%) do total. Brancos tiveram 179 candidaturas (32,72%) e pardos tiveram o maior índice, com 296 candidaturas (54,11%). As candidaturas indígenas teve 3 registros válidos (0,18%).

Na eleição de 2018 o cenário não mudou, seguimos com um número significativo de candidaturas de pardos e pardas, sendo 381 candidaturas (57,47%) de um total de 563 registros válidos. Os brancos somaram 174 candidaturas (26,24%). Pretos e pretas tiveram 103 candidaturas (15,54%). As candidaturas indígenas obteve 2 registros (0,3%).

O que podemos tirar desses números?

1º) O número de candidaturas de pardos e pardas a nível nacional não corresponde ao nível local. Elas são inversamente proporcionais, sendo a nível nacional menor e a nível local maior;

2º) As candidaturas de pretos e pretas segue o mesmo padrão do nível nacional em nível local;

3º) Candidaturas indígenas segue uma sub-representação em nível local e nacional.

4º) Os brancos em nível nacional ostentam os maiores números de candidaturas, correspondendo diretamente no maior número de representatividade política, enquanto no nível local o número de candidaturas brancas é menor, porém, o número de mandatos de brancos é maior. 

Na Assembleia Legislativa do Amapá – (ALAP) em 2014 tivemos 11 pardos, 11 brancos e somente 1 pessoa negra. Em 2018 o cenário mudou, temos na ALAP atualmente 15 brancos, 7 pardos e 2 pretos. O que impede a representatividade negra na política? Essa pergunta merece duas respostas.

Primeiro, do ponto de vista partidário. A esquerda, por exemplo, urgentemente deve atuar com pautas antirracistas e não somente com pautas de classe. É dever do campo progressista mobilizar a raça como luta política fundamental.  Nesse sentido, é preciso repensar a agenda partidária contra a precarização de candidaturas negras, visando converter as candidaturas negras em mandatos.

Em segundo lugar, o que vivemos no Brasil de fato, é uma real crise de representatividade étnico-racial. Quem vota e cria leis no nosso país é a raça dominante: os brancos. Isso em virtude do racismo estrutural que penetra todas camadas da vida social. O racismo não é algo que se ver somente nos xingamentos e humilhações, mas também podemos ver na política. A política precisa passar por uma revolução que seja dos negros pelos negros. 

Referências

ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrural / Silvio Luiz de Almeida – (Feminismos Plurais / coordenação de Djamila Ribeiro) – São Paulo: Pólen, 2019.

PINHEIRO-MACHADO, Rosana. Amanhã vai ser maior: o que aconteceu com o Brasil e as possíveis rotas de fuga para a crise atual / Rosana Pinheiro-Machado – São Paulo: Planeta do Brasil.

http://www.tse.jus.br/eleicoes/estatisticas/repositorio-de-dados-eleitorais-1/repositorio-de-dados-eleitorais acessado em 15 de julho de 2020.


*É graduando do curso de Licenciatura em Sociologia da Universidade Federal do Amapá – UNIFAP. Também é estudante de graduação do curso de Bacharelado em Direito do Centro de Ensino Superior Amapaense – CEAP. Trabalha com os seguintes temas: Mídia e política, direitos sociais, direito e política e política e religião. Contato: niljesus33@gmail.com.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

"TU SABES FULANO? LEVOU O FARELO!" - (DES) NATURALIZAR A NECROPOLÍTICA DA VIDA DO (A) AMAPAENSE


OPINIÃO – UTOPIA NEGRA

Luana Darby Nayrra da Silva Barbosa*
Cleiton de Jesus Rocha**

Quando estamos caminhando pela cidade de Macapá, Santana, Porto Grande, Ferreira Gomes ou qualquer outra parte do território Amapaense. O que vemos? O que sentimos? Se você for morador(a) desses lugares, tudo poderá ser familiar, e tudo que é familiar é difícil a gente estranhar. O estranhamento, ou a percepção dele, geralmente surge quando algo “muito louco” acontece. E falamos sobre o acontecimento — através da fofoca, fuxico, da troca mensagens no WhatsApp — com amigos (as) ou os nossos familiares. Como dizemos em casa “hei bicho vai cuidar da tua vida, e deixa a vida dos outros”. 
Mas, quando tratamos de uma vida em coletividade, desde o nosso nascimento, nós já nascemos nos relacionando com os outros. Nos relacionamos com a família, com as parteiras, padrinhos, madrinhas e amigos (as). Por que estamos falando disso? Não te afoba, afobado (a)!

Você sabe o que é necropolítica? 

Necro (palavra em latim),  literalmente significa morte. E política significa toda e qualquer forma de organização social, que visa gerenciar as nossas vidas em sociedades. Logo, tudo o que nos cerca, até mesmo o que você decide vestir, comer e fazer hoje, é tudo política. Quando a sua mãe (ou pai) fala “meu (minha) filho (a) não faça isso ou não fale isso porque isso pode te prejudicar”, esse saber prático é uma leitura política — evitar conflitos. Dessa forma, meu considerado/minha considerada, necropolítica é como o Estado, a partir dos seus mecanismos de controle, a mídia, a economia e a política institucionalizada acabam por gerenciar a vida e sua finitude - escolhendo pessoas passíveis de morrer. E a morte, mais do que um acontecimento trágico, que provoca dor e luto, pode ser lucrativa ou mesmo servir para a manutenção de determinados estruturas de poder.

Que estruturas de poder são essas?

Quando falamos que o Brasil executa o genocídio da juventude negra, estamos dizendo que o Estado, através da polícia, evasão escolar e da pobreza — acaba por expor vidas de jovens negros (as) a morte. E durante décadas o Estado, sabendo disso, acaba por fechar os olhos para esse crime contra a juventude negra. 
Quando falamos sobre o feminicídio (morrer só pelo fato de ser mulher, e a chance de morte aumenta se você for negra, trans e pobre) é uma estrutura de morte (machismo) o poder masculino que a sociedade dar ao homem – só pelo fato de ser homem. E o poder está nas mãos dos homens, mas especificamente, nas mãos de homens brancos.
Às vezes quando vemos essas noticias tão banalizadas nas mídias do Amapá, não nos damos conta que a dor e o luto não são sentidas somente no momento da morte de uma pessoa que outras pessoas já amaram, o luto se torna permanente e atinge toda a família da pessoa que foi morta. E essa dor no peito de uma mãe (pai) nunca irá ser curada. É uma dor em rede, ficará no tempo e na história dessa família como uma narrativa de violência nas suas memórias.
Quando assistimos os jornais e noticiários da mídia amapaense, é cotidiano você observar imagens de prisões e apreensões, cinegrafistas filmando a cara das pessoas, ou mesmo mostrando os corpos no chão abatidos — como se essas pessoas não fossem nada — e no dia seguinte, está escrito nas matérias jornalísticas “Bandidos trocam tiros com a polícia e são alvejados pelos policiais”. Isso nada mais é que o processo de naturalização da morte, banalizamos a morte, e geralmente essa morte são de pessoas negras. Por isso, a citação no começo do texto - “sabe fulano levou o farelo” - expressa uma frase tipicamente amapaense, que retrata sobre como naturalizamos a morte de outras pessoas, e, ao mesmo tempo expõe como a necropolítica está agindo sobre a nossa consciência, os nossos sentimentos, nas nossas falas, sobretudo por influência do que assistimos e vemos no Amapá. A necropolítica como um processo de gerenciamento de pessoas matáveis está presente na política de Estado, na mídia (jornais) e só no fato de naturalizarmos a morte de “fulano”, estamos reproduzindo uma política de morte – necropolítica.

Arte: Arielson do Carmo


* Possui graduação em Licenciatura e Bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amapá (2018). É membro pesquisadora do grupo de pesquisa Mídia, Política e Democracia - CNPq/UNIFAP. Tem experiência na área da Sociologia e Ciência Política, com ênfase em Processos Políticos na Mídia Digital e Políticas Públicas, atuando principalmente nos seguintes temas: Mídias Sociais, Política Brasileira, Participação Social, Diversidade e Direitos Sociais. Atualmente é mestranda do curso de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara - FCLAr da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" - UNESP. Contato: luanadarby63@gmail.com.


** Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - PPGAS - UFRGS Graduado em Licenciatura em sociologia pela Universidade Federal do Amapá - UNIFAP. Membro do Núcleo de Estudos da Religião - NER/UFRGS. Membro do Centro de Estudos Políticos, Religião e Sociedade - CEPRES/UNIFAP. Vinculado ao Laboratório de Estudos Etnográficos - LAET/UNIFAP. Áreas de interesse: Antropologia da religião, pentecostalismo, juventude, pensamento decolonial, relações étnicas-raciais e amazônia. Contato: clei2014cs@hotmail.com