segunda-feira, 20 de julho de 2020

(Re)significando espaços: vidas negras importam e a Fortaleza de São José de Macapá

Organização: movimento negro do Amapá


Arte: Rodrigo


O que conhecemos hoje como Amazônia Brasileira passou por um longo e violento processo de invasões promovido por diversas nações europeias. Franceses, holandeses, espanhóis, ingleses e portugueses disputaram o controle desse vasto território no decorrer de séculos. À essa disputa sucedeu uma colonização sanguinária feita por Portugal. Ao longo do século XVIII, a coroa portuguesa passou a utilizar diversas estratégias de caráter militar para assegurar o domínio sobre os territórios invadidos. No processo de invasão e colonização dessas terras Portugal explorou a mão de obra de negros e indígenas através do desumano sistema escravocrata.

Nesse contexto, foram erguidas Fortalezas, Fortes e Fortins, a fim de manter a posse dos territórios diante de outros possíveis invasores. Segundo Machado (1989, p. 104): “A partir desse momento, configura-se um novo sistema de controle territorial que se apoiava em pelo menos quatro elementos:  as fortificações; o povoamento nuclear; a criação de unidades administrativas; e o conhecimento geográfico do território.” A Fortaleza de São José de Macapá (FSJM) começou a ser projetada nesse cenário. É uma fortificação luso-brasileira, construída entre 1764 e 1782, com o objetivo de proteger as fronteiras do Cabo Norte, atual estado do Amapá. A FSJM tem seu traçado feito pelo engenheiro militar Henrique Galuzzi, com as colaborações do Arquiteto Antônio José Landi e pelos engenheiros militares João de Groenfeld e Domingos Sambucetti.

Imagem: planta da Vila de São José de Macapá, 1761

Tecnicamente, a FSJM é uma harmonia entre o traçado arquitetônico italiano de fortificação e o estilo francês Vauban de 8º ordem.  Obedece o padrão de fortaleza abaluartada de quatro faces, constituído por um núcleo principal quadrado com espessas cortinas e quatro vértices em baluartes pentagonais com 14 (quatorze) canhoneiras lançantes, delimitando a praça fortificada. Essa é a maior fortificação construída pelos portugueses na América do Sul, em metros quadrados.

Levantar essas muralhas custou o sangue e suor de indígenas e negros na condição de escravizados. Isso, no entanto, não ocorreu sem a constante resistência desses povos durante todo o processo. Segundo Camilo (2003, p. 135):

As fugas realizavam-se em bandos formados por negros e negras de particulares e da Câmara, que tinham ao seu favor o meio físico da região, pois a bacia hidrográfica do Amapá é formada por lagos, furos, igarapés e pelos rios Oiapoque, que separa o Brasil da Guiana Francesa, o Cassiporé, o Calçoene e o Araguari, que é formado por muitas cachoeiras propícias à formação de quilombos.

Nesses espaços de resistência, negros, negras e indígenas podiam viver e lutar pela liberdade. Plantavam, comercializavam e tentavam de todas as formas permanecerem livres, apesar das muitas tentativas dos portugueses em recaptura-los para novamente explora-los na construção da fortaleza ou em atividades agrícolas.

Embora a fortaleza tenha sido construída com objetivos puramente colonizadores e ter sido instrumento de exploração e tortura de negros e indígenas, ao longo das décadas ela tem passado por um processo de ressignificação de seus usos e espaços. Primeiramente, porque ela passou a ser utilizada como um símbolo estatal, ostentado em bandeiras, logomarcas e campanhas relacionadas ao estado do Amapá e à cidade de Macapá. Mas essa ressignificação desponta principalmente pelo fato de que as populações locais têm tornado a FSJM um espaço de domínio popular, capaz de abrigar a pluralidade de identidades coexistentes dentro do Amapá.

Desta maneira ela começa a se desprender de seus sentidos coloniais, passando a ser um Patrimônio Cultural do povo do Amapá. Seus espaços passam a ser utilizados por povos e grupos que tiveram seus ancestrais explorados/marginalizados/invisibilizados naquele mesmo lugar. A Fortaleza, portanto, passa por uma metamorfose de sentidos, e aí se inicia a sua construção enquanto local de articulação social e política de diversos grupos, inclusive símbolo de resistência pelas vozes negras e indígenas.

Os indígenas do povo Wajãpi veem nela a Mairi de suas narrativas cosmológicas, “onde o criador Janejar havia abrigado [e protegido] seus antepassados do cataclisma que eliminou a primeira humanidade” (GALLOIS, 2007, p. 71). Já os negros e negras do Amapá, remanescentes daqueles que foram trazidos à força da África, cantam os ladrões e dançam o Marabaixo dentro daquelas muralhas, em ocasiões como o aniversário da fortificação. Vez ou outra, rola até roda de capoeira ali dentro.

A Fortaleza de São José de Macapá não é mais reconhecida somente como um símbolo de ostentação colonial e opressão. Ela é um patrimônio dinâmico que (re) existe na memória individual e coletiva do povo amapaense, reunindo assim características tanto comuns quanto heterogêneas dentro da diversidade de grupos que com ela interagem durante as gerações que passam.

 

Referências Bibliográficas

BRITO, Carla Marinho. Visualidades da Fortaleza de São José de Macapá em interação com uma escola pública da cidade de Macapá. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais), UFPB, 2013.

CAMILO, Janaína Valéria Pinto. Homens e pedras no desenho das fronteiras: a construção da Fortaleza de São José de Macapá (1764/1782). Dissertação (Mestrado em História), Unicamp, 2003.

CASTRO, Adler Homero Fonseca de. Muralhas de pedra, Canhões de bronze, Homens de ferro: fortificações do Brasil de 1504 a 2006. Rio de Janeiro: Fundação Cultural Exército Brasileiro, 2009.

GALLOIS, Dominique. Gêneses waiãpi, entre diversos e diferentes. Revista de Antropologia, v. 50, nº 1, 2007.

MACHADO, L. Mitos e realidade da Amazônia brasileira no contexto geopolítico internacional (1540-1912). Tese (Doutorado em Geografia Hmana), Universidade de Barcelona, 1989.


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