• Rayane Penha

ESCAVANDO HISTÓRIAS: O DESPERTAR DO INCONSCIENTE NA BUSCA POR UMA ANCESTRALIDADE

Atualizado: Mar 20

Texto publicado originalmente aqui.


Na cultura do povo Bancongo que vive na costa atlântica do continente africano existe um ditado popular que fala: "a anterioridade não é um pretérito que se encerra em algo que passou e se acabou, a anterioridade é algo que se faz presente". Refletindo sobre o momento presente da sociedade brasileira, principalmente em um contexto político tão aflorado em nossos cotidianos me veio a necessidade de olhar para essa anterioridade do nosso país, um olhar sobre as raízes desta história que parecem muitas, mas no fundo é uma só, a história do Brasil, só que hoje, contada por brasileiros, nos legitimando, nascidos desta terra. O pensamento sobre nossas identidades raciais e culturais sempre veio acompanhado da palavra “diversidade”, mas a falta de clareza sobre as singularidades dessas identidades nos levou a uma sociedade extremamente ignorante sobre sua própria identidade, o que nos leva a um país racista, cheio de desigualdades sociais e econômicas em que vivemos na atualidade.


Elane Albuquerque, 49 anos, mestre em educação e autora do livro “Vejo um museu de grandes novidades, o tempo não para… Sociopoetizando o museu e musealizando a vida”, faz um registro histórico e cultural do estado do Amapá. Ela diz que ao reconhecer uma ancestralidade a gente perpassa por esses processos de desconstrução de tradições racistas, de subalternidade e invisibilidade de povos e culturas. “No Brasil a questão da ancestralidade se constrói a partir da história de um país colonizado e hierarquizado socialmente”.


Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) fez uma ampla análise genética da ancestralidade brasileira e traz a tona alguns traços culturais, como por exemplo, casamentos entre povos das mesmas culturas que demonstram que a miscigenação no Brasil é bem menor do que a que é colocada pelo mito da democracia racial do nosso país. Como em Salvador que apresenta uma população de maior origem africana com 50,8%, seguida da europeia com 42,9% e por último ameríndia com 6,4%. São dados que se invertem quando falamos da região Norte do país, o que demonstra que para além dos fenótipos que carregamos, há diversas formas de culturas e olhares para a sociedade, ao olharmos para essas ancestralidades podemos descobrir novas formas além dessas que nos são apresentadas.


“Só agora que comecei a escrever a minha aldeia, a minha aldeia vive perto de mim, a minha aldeia está dentro de mim. Fecho os olhos, tampo os ouvidos e escuto a minha aldeia. A minha aldeia não sai de mim, ela é a minha cicatriz tatuada.”, diz Maurinete Lima em seu livro Sinhá Rosa. A Poetisa recifense que lançou seu primeiro livro aos 74 anos, faleceu em 2018. Seu livro é uma conexão com o ancestral através da poesia, uma perspectiva histórica sobre o Brasil ao mesmo atualizada, anticolonial e futurista.


Faz alguns bons anos que eu venho refletindo sobre minha identidade racial, ao longo desses anos pareceu que eu andava fazendo escavações cada vez mais profundas, sem chegar a uma resposta exata da pergunta “quem eu era?”

Na casa dos meus avós no Vila Nova, comunidade onde cresci

Crescendo em um povoado de ribeirinhos e garimpeiros onde os traços caboclos e negros eram comuns, a única estranheza era quando brancos que trabalhavam na mineradora chegavam por lá, eles faziam o mesmo serviço do meu pai, mas meu pai negro da pele escura os chamava de doutor e eles brancos chamavam meu pai de “peão”.


Aquelas cenas repetidas tantas vezes me causavam um nó no estômago, não porque eu sabia o que era racismo, mas porque eu sabia que meu pai era um homem importante, não só para mim que era sua filha e o via como herói, mas para todos da comunidade que o respeitavam como uma liderança local. Ver a submissão dele diante dos brancos era doído, sua voz pra dentro, os olhares baixos e a concordância de tudo; logo ele tão questionador... De gritos para ser escutado, de olhares firmes, logo ele, ali com os brancos de cabeça baixa.


Na adolescência, os confrontos sobre essas relações com o meu pai se tornaram intensos. Eu, “estudada”, como ele dizia, não suportava suas falas extremamente racistas, gritava para ele se olhar no espelho, olhar seus cabelos crespos, o seu nariz, a sua pele, ele era preto! Então ele me rebatia dizendo: “eu sou preto, mas meu sangue é branco”. Eu, estudante de escola pública a vida inteira tive a dádiva de ter professores que não apenas ensinavam, mas educavam pra vida. Através deles que aprendi a refletir sobre mim e sobre a história do Brasil e aprender com eles estava para extensão das salas de aula. Eles enquanto pessoas me ensinavam que o Brasil não começou em 1500, que os negros não eram escravos, mas foram escravizados, que o dia do índio, apesar da escola insistir em folclorizar, não era folclore, os índigenas existem e resistem, hoje e desde sempre.


Eu voltava para casa, cheia de questionamentos, confrontava meu pai e minha mãe pelas atitudes e palavras racistas, misóginas, homofóbicas. Não conseguia entender como duas pessoas tão oprimidas tinham um discurso tão opressor. Em minha mãe eu até compreendia, ela cabocla da pele clara, se agarrou ao tom de sua pele para negar os traços indígenas que carrega. Até hoje se eu falar que ela tem traços indígenas ela se benze e diz “cruz credo”. Mas eles estão lá nos seus olhos, no formato do rosto, em seus cabelos herdados de meu avô, homem da floresta e repassados para mim. Recentemente, aos 23 anos, em uma academia de São Paulo eu vi a instrutora passar a mão no meu rosto admirada porque nunca tinha visto uma pessoa indígena, mesmo eu dizendo para ela que eu não era indígena, que eu vinha da amazônia, mas não era indígena. Disse isso não por uma negação de identidade, mas por entender que hoje eu apenas carrego características físicas daqueles que antes de mim tiveram essa vivência, que para mim esse lugar de afirmação é daqueles que hoje vivem ser indígena e mais do que isso, por desconhecer esse outro lado da minha história. Esse episódio era um ponto de partida para chegar em raízes ainda mais profundas sobre quem eu sou. Eu que me afirmo hoje mulher negra percebi que essa afirmação vinha muito por conhecer a negritude histórica e cultural que habita em mim, pelo conforto de conhecer a história da minha família paterna, mas a miscigenação presente no meus traços físicos grita pela necessidade de aprofundar ainda mais minhas raízes.


Nessa busca de mim acabei encontrando muitos outros, dois deles grandes amigos que estavam passando por processos parecidos, escavando suas histórias e vendo o reflexo delas em suas atualidades. Samara Alencar, produtora executiva de 30 anos, oriunda do município de Afuá no interior do Pará e Rodrigo Aquiles, publicitário de 33 anos, nascido em Salvador, Bahia, e amapaense há mais de 20 anos.


Os dois vivenciando conexões com suas ancestralidades em uma busca não só de identidade mas por algo que Samara chama de “tomada de consciência, tomar consciência do quanto que a gente ta voltado pra essa superficialidade, pra essa negação, é se empoderar enquanto ser histórico, enquanto ser político e essa é a minha história, esse é o meu lugar”.

Samara quando criança em Afuá, foto do arquivo pessoal.

“Essa percepção de que são onde estão minhas raízes, então eu negava isso e eu negava a mim mesma a minha própria história” É em Afuá, a terra rodeada pelas águas doces que banham as ilhas do Marajó que a busca de Samara hoje é voltada para preservar as memórias de sua avó e por descobrir mais sobre a identidade de seus bisavós e consequentemente mais sobre a sua. No seu esforço em recobrar as memórias da avó, o que me chamava atenção no que ela me contava era o fato dela sempre se referir às pessoas pelo grau de parentesco e nunca pelos nomes, algo que depois ela confessou ser por desconhecer os nomes de seus ancestrais. Algo tão corriqueiro como nossos nomes e desconhecemos tão profundamente os daqueles que fazem parte de nós. Mesmo que seja algo presente em nossos cotidianos, como quando ela me conta que sua avó materna sempre teve o costume de contar histórias sobre a família: “minha vó, a gente senta pra tomar um cafézinho e ela já começa a contar e ela tem uma visão muito lúcida ainda, muito positiva da vida”. Ela diz que nunca tinha se interessado profundamente sobre as histórias, até recentemente “Eu sinto que to mais preparada para receber as coisas, tanto é que quando ela conta aí eu faço perguntas. Aí ela vai explorando camadas mais profundas disso”.


Através de conexões com grupos de mulheres ela conta que foi onde surgiu de forma mais concreta o interesse por registrar as memórias da família e de conhecer melhor a história que também é dela.


No grupo, ela percebia as relações conflituosas que relatavam principalmente sobre os vínculos com os femininos nas famílias. Percebendo que nela haviam feridas emocionais para além da relação consciente que estabelecia com a família, ela trouxe essas experiências a tona e decidiu que precisava olhar para isso, “porque você tá sofrendo internamente e inconscientemente. Pra eu me entender e fazer as pazes com a minha história eu preciso entender as histórias das minhas ancestrais, entender que as mulheres que vieram antes de mim elas sofreram muito e tem algumas que estão vivas e estão sofrendo”. Samara coloca que mesmo com todo um debate sobre o feminismo, ele não alcança as camadas mais populares e diz que se sente responsável em levar esse conforto em relação ao feminino para as mulheres de sua família. “É processo de buscar estar sempre consciente de que os conflitos que eu vivo são parece repetições de processos inconscientes da minha estrutura familiar principalmente feminina”.


Em um ato de teimosia em não repetir a sina das mulheres de sua família, Samara reage contra o próprio ego, que diz ter sido o seu maior desafio na sua busca. “Na minha história, na história de vida da minha avó tem muito disso esse caminho de expiação até chegar o momento que acontece uma coisa milagrosa”. A história de Samara e das mulheres de sua família é o milagre da escolha diária de preservar essas memórias e a partir delas construir novas narrativas.

O baiano mais amapaense que conheço!


Soraya gravida do Aquiles, foto do arquivo pessoal

“Eu tenho muitas lembranças dessa fase, algumas pessoas dizem que é impossível, mas eu lembro de muitas coisas”. Aquiles me conta sobre sua memória mais marcante da infância. Diz que foi na vinda de Salvador para o Amapá, que devia ter 3 ou 4 anos quando ele e a mãe Soraya fizeram essa travessia de ônibus. Lembra de cantar músicas sertanejas dentro do ônibus, ele sorri ao lembrar que as pessoas perguntavam por ele “os passageiros já sabiam que era eu que cantava e perguntavam onde é que tava o menino cantor, cantava Zezé de Camargo, Leandro e Leonardo”. Talento refletido nos dias atuais, Aquiles além de publicitário também é músico.

Sua retomada era ainda mais literal, depois de mais de 20 anos no Amapá e com uma história familiar cheia de lacunas, ele estava voltando pra Salvador para reencontrar seu avô Cândido “Meu avô não gosta de ficar parado em um lugar só, minha mãe fala isso…” talvez uma herança familiar para Aquiles, que carrega em si uma tranquilidade e fala pausada, mas olhares profundos que denunciam uma inquietude com o mundo. Através dessa inquietude e de suas reflexões sobre sua identidade ele partiu para um terreno que faz parte de si, mas que havia se tornado desconhecido. A última vez que ele esteve na Bahia tinha 9 anos. Ao virem para o Amapá ele disse para a mãe que queria morrer na Bahia. “Eu pego muito esse momento como referência pra essa minha volta pra lá, não sei como é que vai ser, mas acho que é bem forte ainda essa minha ligação”. Na época a ligação familiar que tinha era com a família adotiva da mãe, agora o reencontro não é só com os laços familiares de sangue, mas com todas as relações socioculturais de um lugar do qual ele também é pertencente.

Foto do arquivo pessoal, Rodrigo em Salvador em frente a casa da família

O pertencimento é algo que Aquiles confessa não ter, nas relações familiares e no lugar de “estrangeiro” que por muito tempo se sentiu ao estar no Amapá e como agora se sente ao voltar a Salvador. “Eu vou chegar lá como um estrangeiro, como um amapaense, isso é estranho, não tem como eu chegar lá e as pessoas me verem como um baiano”. Mas a retomada se apresenta como necessária em sua vida, a falta de pertencimento nas relações familiares e aos lugares desperta a lacuna da identidade, a sua busca é também por essa conexão, que ele diz que nunca foi feita por sua família, mas que hoje sente que é seu dever fazer “É algo que minha mãe nunca teve também, talvez caiba a mim procurar um pouco mais sobre a nossa história”. Aquiles coloca a necessidade de sua retomada como a experiência que no fundo lhe trará fortalecimentos.


Da firmeza das terras do sertão para a fluidez do amazonas, a mãe de Aquiles construiu nas terras tucujus novas raízes. Quando eu pergunto sobre sua mãe, é visível que o menino não pertencente, pertence sim a um lugar, um lugar seguro que é o coração da mãe, Soraya. Ele respira fundo e com os olhos marejados me responde: “Minha mãe é sensacional!”, conta que por muito tempo foram só os dois. “Ela fez tudo pra mim”, ele reconhece, mas diz que parece que nunca vai ser suficiente, que tudo que quer é vê-la feliz, depois da infância e da adolescência difícil que ela teve, encontrou aqui o lugar de superação, emprego, estudos, amores e uma nova filha, pro Aquiles chamar de irmã. “Ela nunca desistiu”, diz.


Ele apresenta a busca por sua ancestralidade como um ato político, que é para si e por sua família. Algo que lhe foi negado e até mesmo distorcido como a história do nosso país, a consciência colonizada que nos acompanha até os dias de hoje, o apreço pelo externo, a não valorização daquilo que vem de nós, romper com isso é despertar o inconsciente das nossas raízes. “A gente termina se desvinculando de uma identidade que é imposta, para aceitar sua própria identidade, sua própria individualidade”. Para Aquiles, só o fato de procurar entender de onde ele veio já o fortalece por saber quem veio antes dele: “algo que é como se a pessoa fosse bem maior do que ela é” . Ele me conta que nas conversas com mãe, os dois sempre refletem sobre a energia da avó materna, diz que sente como se algo sempre o tivesse guiando, colocando no caminho certo. “A impressão grande que a gente teve é que realmente tem alguma coisa desse lado da família, tem algo por alí que vem moldando meu presente hoje. Talvez seja isso que eu esteja tentando descobrir também”.


Thayse Medeiros de 32 anos é psicóloga e diz que a ancestralidade está diretamente ligada a uma ideia de inconsciente coletivo. “É o que anterior ao que é meu já é existente, mas é meu também”. Segundo Thayse, a psicologia analítica, que é uma teoria da psicologia, visa o ser humano como um todo, em suas questões biológicas, emocionais, físicas, espirituais, geográficas, em todo o seu contexto geral, originada a partir das idéias do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Apesar da psicologia analítica se mostrar abrangente relacionado às questões humanas, ela não é tão bem aceita pelos profissionais da área e ainda bastante desconhecida pelos leigos. Thayse coloca que muitos profissionais não aceitam por negarem a existência do inconsciente. Ela diz que a psicologia surge como um estudo da mente e da alma e que negar o inconsciente é negar a alma, logo se nega também a psicologia. Para ela, o trabalho com o outro se dá a partir da crença no seu inconsciente, que não tem como trabalhar com o ser humano só a partir do que ele é agora, porque isso seria trabalhar o momento e não o ser humano. “A psicologia analítica busca a individuação, o encontro com o eu mesmo, com o meu self. É sair do ego, do consciente que a gente chama, pra parte inconsciente, pra eu buscar o meu eu interior, o meu subjetivo”.


A negação do inconsciente que vive em nós me assusta, é como uma escolha em continuar dormente, diante de uma história ainda em retalhos que é o Brasil, diante da negação de uma identidade nossa. Nós viemos, nós somos todos aqueles que hoje são colocados às margens. A estrutura do processo de colonização faz com que hoje a gente negue que somos pretos, indígenas, parentes de povos que foram escravizados para construir este país, todos querem ser descendente de europeus, o lado “bonito” da história e como em uma ilha de edição, eles editam a memória conforme o que acham que a sociedade vai achar melhor.


* Prêmio Neusa Maria de Jornalismo

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