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A nova música popular amapaense é preta!

Atualizado: 24 de jun.

Por: Geisiane Nascimento

Foto: arquivo pessoal Mc Deeh


O ano de 2022 iniciou com a esperança de reconstrução com as retomadas dos eventos presenciais. Como em todos os setores, o cenário musical no Amapá, também embarca nessas expectativas, principalmente após dois anos vivendo uma pandemia, ocasionada pela covid-19. Espera-se que esse assunto fique no passado, e que a movimentação de mais shows, festivais, lançamentos, possam voltar, dentro de uma nova normalidade.

Diante deste cenário, a indústria da música, a cultura negra, e a cultura como um todo, teve que adaptar-se às ferramentas tecnológicas de informação e comunicação, e o meio digital virou aliado para muitos artistas.

Mas nem todos dispõe de recursos para se adaptar a essa nova realidade. Claro, só aqueles que já dispõe de um bom capital e já tem nome no mercado. Nesse sentido, temos o hábito de admirar o que vem de fora e a não valorizar os artistas locais. Durante o isolamento social, acompanhamos um grande número de "lives", que duravam horas, de artistas famosos promovendo seus shows. Em Macapá, também ocorreram esses eventos, mas não obtiveram o mesmo êxito, pela ausência de valorização do que é local. Mas você já parou para conhecer os artistas nortistas? Conhecer outros ritmos, além daqueles que você está habituado?


Considerado como um instrumento de transformação social, e uma das maiores manifestações da cultura negra, trazendo consigo histórias, entretenimento musical, o RAP, tem adentrado e mudado a vida de muitas pessoas, dando voz e vez, a um ritmo que por muitos anos, era relacionado a criminalidade e marginalidade.

O RAP surgiu nos Estados Unidos, na cidade de Nova York, no ano de 1970, sendo um estilo musical, que faz parte das vertentes do Hip Hop, que é a dança, assim como o grafite e os DJ 's. No Brasil, HAP ganha visibilidade com o grupo "Racionais MC's", fundado em 1988. No Amapá, um dos primeiros grupos de Rappers, foi o Clã Revolucionário Guerrilha Verbal (RGV), na década de 1990, tendo como fundador Jorge "Poca".

Criado e nascido nesse meio, Jorge Filipe Silva de Araújo, filho de " Poca", mais conhecido como "Pretogonista", afirma que o RAP é a nova "MPA" (Música Popular Amapaense/Música Periférica Amapaense). Pretogonista traz em suas músicas, e clipes publicados nas suas redes sociais, a amapalidade, unindo o RAP ao batuque do Marabaixo, como a música "Flow Marabaixo".



Oriki, mais recente trabalho do rapper Pretogonista. Foto: Ianca Moreira. Arte: Rodrigo Santos


"Eu sempre busco, botar no RAP, a minha identidade, a nossa identidade local, gírias e também a minha origem negra, toda ancestralidade africana", declara o artista.

Pretogonista, afirma que uma das maiores dificuldades, para quem está começando, é a falta de recursos, tanto financeiro, quanto na produção de conteúdos, bem como a falta de reconhecimento da população, a não valorização e o preconceito com esse estilo musical.

"Hoje em dia a gente já tem estúdios que trabalham com isso, mas a maior dificuldade é o preconceito, vindo de outras vertentes culturais e musicais, que não reconhecem o RAP como música, como arte, como cultura. E também não reconhecem os artistas do RAP, como artistas", esclarece o Rapper.

O cantor fez várias produções independentes e algumas parcerias, arriscando-se através de um programa de rádio na Web, abrir espaço para a cultura negra.

"Foi bacana essa época que eu tive lá. Eu pude levar alguns artistas aqui da cena, eu pude abrir espaço pra galera que estava começando".


Essa é uma realidade que assola a maioria dos artistas pretos, no Norte. Essa falta de visibilidade, faz com que os projetos sejam mais independentes, e demorem mais para se expandirem. Em Macapá, são poucos os que têm condições financeiras, para investir em conhecimento, em produzir música e crescer na cultura. Requer tempo e esforço, dentro da realidade de cada um.

Carlos Washington de Oliveira Cosme, conhecido como o Mc Super Shock, de 26 anos, é uma das referências que também busca mudar essa realidade.


Foto: arquivo pessoal


"Eu confesso que me divido entre a música e o audiovisual. Hoje eu estudo cinema, tenho trabalhos que estão ganhando prêmios, como o filme Utopia, de Rayane Penha. Do EP da Tani Leal, MC Yanna, o Anthony Barbosa. Hoje eu conto histórias, faço ' filmes musicais'. Sobre as dificuldades, ainda existem muitas problemáticas que faltam ser resolvidas, o próprio fomento do estado", expressa Shock.

Como artista e produtor, Mc Super Shock, ressalta que a arte foi primordial na sua vida.

"O Hip Hop educou a minha vida. Para a partir daí eu ter um senso em querer me aprofundar. Quando eu era mais novo eu não lia nem um livro. Foi a partir do RAP, que eu escutava, que ditava o nome de grandes filósofos, escritores, quando eu pesquisava eu tinha que ler. Isso trouxe uma transformação como indivíduo, transformação social. Como entender a sociedade sobre as problemáticas que a gente tem na sociedade", afirma Shock.

O RAP, também é poesia. Expressando o amor, através das suas músicas, que Shock consegue ampliar e dar voz a cultura do RAP no estado.

"Eu acho que tentei fomentar, de todas as formas viáveis e impossíveis o nome 'Amapá', através principalmente do estudo. Parei para analisar, entender, fui o cara que naveguei um pouco em tudo. Fiz curso de produção musical, em formas de parcerias. Eu fiz curso de audiovisual, e busquei tentar fazer algo diferente, para lembrar que quem está fazendo são pessoas do Norte. Porque o que eu sempre escutei quando eu comecei a pegar um destaque: 'Meu Deus isso está tão lindo, nem parece que é daqui'. Por que não? Por que a gente não tem essa capacidade? Eu sempre busquei isso, mostrar que a gente tem capacidade e sempre veicular que eu sou um artista nortista, RAP nortista Amapaense".


Mc Deeh, como é chamada Ana Débora de Andrade de Oliveira, de 24 anos, e Mc Yanna, também enfrentaram muitas barreiras no início de suas carreiras, principalmente por serem mulheres pretas cantando RAP. Essa realidade faz parte de suas composições e produções. Como MC's encaram as batalhas, as rimas e o preconceito da sociedade, mas nunca desistiram. Através dessa persistência, muitas portas abriram e hoje são rits.

"Com 14 anos eu comecei nas batalhas de RAP, a prestigiar os movimentos, além das danças urbanas, e comecei a perceber a falta de representatividade feminina. No ano que eu comecei a participar eu percebi que só tinha uma mulher que participava, e eu comecei a fazer as minhas composições, em 2016, com 15 anos. Em 2017, eu criei o meu projeto", conta Mc Yanna.


Foto: arquivo pessoal


A pedagoga, Mc Yanna, tem mais de 15 mil visualizações em seu canal do Youtube, com o single "Quando o coração parte mais alto", em parceria com o Mc Super Shock. Fez parceria com artistas locais, e até mesmo fora do estado.

"Essa luta enquanto artista nortista, tem de trazer visibilidade para o Norte, que é uma luta diária, de levar o RAP nortista, feminino, para fora do estado. Fico muito feliz quando outras mulheres chegam para mim e dizem que se sentem representadas", frisa Mc Yanna.


Mais recente trabalho de Mc Deeh o ep "Deusa". Foto: Ianca Moreira. Arte: Rodrigo Santos


A Bgirl Deeh, como também gosta de ser chamada a Mc Deeh, evidencia o que a música mudou em sua vida.

"A música me proporcionou muitas coisas boas, onde estou hoje, a vida que eu levo hoje, foi minha carreira que me proporcionou", ressalta Mc Deeh.

A artista iniciou na cultura como "Bgirl", como dançarina do Hip Hop, e hoje retoma as suas origens, trazendo consigo mais experiências e uma bagagem musical. Seu primeiro trabalho profissional, intitulado "Meu bonde é esse", foi um sonho realizado. No entanto, não foi fácil concretizá-lo.

"Na minha primeira oportunidade de gravar o clipe, tentaram me sabotar, me deixaram na mão em cima da hora de gravar o clipe. Eu tive que contactar outro produtor. Foi um clipe que eu lancei sem parceria, sem patrocínio. Tive que trabalhar o mês todo para juntar o dinheiro, pra eu fazer a minha produção", conta Mc Deeh.


Mas não é somente do Rap que a cultura negra vive aqui no Amapá. Alguns talentos, optam por outras vertentes musicais.

Como muitos artistas Anthony Barbosa, foi apresentado a música quando criança.

"Eu comecei a estudar música mais sério aos 12 anos e comecei a ver melhor esse mundo da música. Meu pai me levou pra estudar lá (Centro de educação profissional em música Walkíria Lima), pois eu nem tinha conhecimento sobre a escola e muito menos a pretensão de seguir carreira artística. Mas só no fim do curso, 2018/2019 eu consegui entender de fato em quais áreas eu poderia estar atuando. Depois de um semestre inteiro conversando com o meu professor da época (Aron Miranda) que eu pude entender melhor o que eu buscaria como artista".



Foto: Saturação


Anthony, revela que o seu estilo de música não agrada a todos, como artista, percebe uma dificuldade em expressar a sua arte, principalmente por ser negro. "Por trabalhar principalmente com a música instrumental, tem um abismo muito grande entre a audição e compreensão das obras apresentadas. O público não é acostumado a assistir esse tipo de show, alguns técnicos de som não estão acostumados a trabalhar com instrumentos acústicos e sempre vai haver alguém que subestime um negro que se diz artista", revela Barbosa.

O violonista evidencia a paixão pelo o que faz, e por ser quem é. "Sou um homem preto que tenta mostrar que a arte é o ser que me mantém. Eu gosto de compor trilhas para filmes, gosto de compor sobre o cotidiano e eu quero ser feliz fazendo o que eu gosto, fazendo a música que eu acredito”

Anthony Barbosa, lançou o seu primeiro projeto autoral no final de 2021. Só pode pode concretizá-lo com a saída do edital Aldair Blanc, de emergência cultural. A lei surgiu com o intuito de ajudar trabalhadores (as), da cultura, bem como espaços da cultura durante o período de isolamento social, ocasionada pela pandemia da covid-19. “A Extensão do Corpo nasceu no final do meu curso técnico e primeiro veio no formato de show apenas com uma música autoral, Dona Dora. Com o surgimento da Lei Aldir Blanc vi a possibilidade de transformar esse show em um ep, mas que tivesse a minha cara e as minhas músicas e assim o fiz", confirma Anthony.


Tani Leal, aos seus 26 anos de idade, também conseguiu lançar o seu primeiro EP "Tani: o que eu queria ter feito antes", com a participação de Anthony e o Mc Super Shock. Juntos puderam produzir e dar mais visibilidade à cultura negra no estado. "Esse projeto foi construído desde o princípio, com o Anthony Barbosa, que fez a produção musical, que me ajudou a compor algumas músicas também, e o Mc Super Shock ficou responsável na produção visual, eles dois conversaram comigo sobre a necessidade de eu me enxergar artista", ressalta Tani.


Foto: Thayse Panda

A cantora, destaca que a sua maior inspiração é "música preta, feita por gente preta", e cita que é fã, inclusive de Elza Soares, e pode assistir seu último show em vida. Elza Soares nos deixou no dia 20 de janeiro de 2022, e foi umas mulheres pretas que mais representou e relatou em suas canções, a intolerância, o racismo e a luta por igualdade.

Além de cantores nacionais consagrados, Tani evidencia que gosta de escutar RAP, apesar de não fazê-lo, principalmente o RAP local.

"São MC 's que muito me inspiram, Mc Deeh, Eron, Pretogonista, aqui do Amapá, a Máfia Nortista. Enfim, são muitas referências que me fazem ser a artista que eu sou".


Para 2022, teremos a oportunidade de nos dispor a conhecer novas culturas, a cultuar aquilo que é nosso. Bem como uma renovação dos que estamos ouvindo recentemente. Porque a arte vai estar presente em todos os âmbitos, na TV, na Rádio, na internet, nos bares, boates... e uma hora você vai sentir essa presença.





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