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CARTA A UM HOMEM NEGRO (VULGO MEU PAI): ABANDONO E PATERNIDADE NEGRA


Imagem: Moonlight

Por - Dàgalágbà (nome fictício)*


Demorei demais para colocar na centralidade dos meus pensamentos e sentimentos a figura da paternidade de quem chamo de “doador de esperma”, ao longo da minha vida, essa figura sempre foi marcada por um paradoxo: A negação de sua existência e a constante lembrança reafirmada quase que diariamente pela minha família “Dàgalágbà, não seja como teu pai!”. Afinal, quem era essa figura quase que mítica? Como vou deixar de ser alguém, que eu não convivo e não conhecia. Minha masculinidade sempre foi em oposição a dele. Mas, primeiro, eu precisava nos últimos anos levar a sério quem seria esse homem na minha vida e no meu imaginário. Meu pai, é tudo, que a sociedade brasileira espera de um homem negro. Irei descrever esse imaginário não para fortalecê-lo, mas para questioná-lo. Ele é um homem negro que foi condicionado a ter várias mulheres, para além de ter, ele engravidou várias mulheres, e depois as abandonava. Dentro desse movimento, sou fruto do abandono.


Ele foi condicionado e foi negada o direito de estudar e foi empurrado ao trabalho braçal (ao trabalho subalterno) — que todos os dias homens negros são empurrados a ocupar esses lugares. Outro fator meu pai era violento e alcoólatra. Das poucas lembranças que tenho dele, todas são marcados pela violência. O presente do meu pai é uma marca na minha perna de uma fivela de um cinto que rasgou minha pele. Minha mãe certa vez tentando se defender, teve que esfaqueá-lo, e a imagem do sangue nunca saiu da minha cabeça. Talvez amigos (as) e familiares não saibam disso.


No início do texto escrevi “minha masculinidade sempre foi posta em oposição a do meu pai”, logo, meu acesso a esse homem negro sempre perpassou pela narrativa das mulheres que me criaram. Demorei anos para ter consciência disso. Essa ideia estava no meu inconsciente, e isso atravessava toda a minha vida e me influencia. Saber disso é doloroso, porque, minhas atitudes acabariam por machucar pessoas e a mim mesmo. Nada justifica, aqui entra a responsabilidade. Logo, como posso me criar como “homem” sendo que perpassa por essa “referência”? E o mais doloroso como posso eu fazer um resgate de uma negritude sendo que essa é atravessada por dor, abandono e sofrimento? Na música " Negro Drama" escreve Racionais MC's “Um bastardo mais um filho pardo sem pai”, nesses anos, levei a sério no processo de entender em profundidade esse homem negro que atravessa toda a minha história. Falando, com amigos sobre isso, umas das marcas do racismo e no período da escravidão era que os homens negros tinham que suportar tudo e não demonstrar fraqueza diante das mulheres negras e dos seus filhos, e umas das coisas da violência da escravidão foi colocar os homens negros como férteis e reprodutores — tinham metas de engravidar as mulheres por ano.


Depois disso, comecei a analisar com quais mulheres ele se relacionou — das mulheres que fiquei sabendo todas eram brancas. Outra questão surge: porque os homens negros procuram mulheres brancas para se relacionar, e, ao mesmo tempo, evidenciar publicamente? Como já ficou mais do que batido, só ver os homens negros de sucesso, quase sempre tem uma mulher branca para chamar de sua. Como se isso fosse fazer esquecer da sua condição de homem negro, ou mesmo, por um momento entrar em um campo onde ele poderia ser ele mesmo e não ficar diante da sua dor e angústia pelas violências que são postas aos homens negros — por que nós adiamos tanto, a tal ponto, de não conseguirmos nos relacionar com as mulheres negras. Penso, talvez, que esse movimento dele era poder em um momento escapar das violências que ele sofreu, e poder se encobrir na pele que inconscientemente ele desejava passar aos seus filhos — mal sabe o que ele produziu. Me empurrou ou boa parte dos seus filhos na ideologia do branqueamento - se relacionar com pessoas brancas para clarear a família.


E que a minha própria família, tentou, mesmo que de forma inconsciente, fazer um apagamento de qualquer relação com a minha família por parte desse homem negro — eu não sei quem são os pais dele, não sei quem são os meus avós.


Como essa violência colonial acaba por influenciar nossos comportamentos e reproduzirmos a falta de responsabilidade com as mulheres negras, o abandono, mas do que uma palavra - o abandono- deixa marcas reais e profundas nos nossos psicológicos e no campo do sentimento, tanto para os filhos como para as mulheres. Nesse ponto, entra uma pergunta, como devo responsabilizar o meu pai como um homem negro? Do qual as atitudes desse deixou marcas de dor? Dos movimentos que fiz e ainda faço é: fazer uma leitura sobre a história do homem negro nesse país, entender os comportamentos desse homem negro sobre a influência da colonização, como isso me atravessa, e entender em profundidade que muitas vezes ele mesmo não sabe que está reproduzindo essas violências coloniais, isso significa dizer que irei retirar a responsabilidade dele ou mesmo justificar, jamais! Ele é responsável pelas dores causadas nas pessoas (nos seus filhos e nas mulheres com quem se relaciona) e pelo abandono.


Depois de caminhar pela minha própria dor, o que vou fazer com isso? Primeiro é absorver tudo o que isso significa, analisar os meus próprios comportamentos — e assumir a minha responsabilidade — e tentar acabar essa lógica colonial que os homens negros são condicionados. Essa lógica da crueldade que fere tanto os homens negros, como as pessoas com quem a gente se relaciona. Em vivendo de amor escreve Bell Hooks “Nós negros temos sido profundamente feridos, como nos diz, “feridos até o coração", e essa ferida emocional que carregamos afeta nossa capacidade de sentir e consequentemente, de amar. Somos um povo ferido. Feridos naquele lugar que poderia conhecer o amor, que estaria amando.” Continua “[...] muitos negros estabeleceram relações familiares espelhadas na brutalidade que conheceram na época da escravidão. [...] Estavam assim se utilizando dos mesmos métodos brutais que os senhores de engenho usaram contra eles [...] escravos revelam que sua sobrevivência estava muitas vezes determinada por sua capacidade de reprimir as emoções.”


Diante disso, o que nós homens negros vamos fazer, como vamos reinventar a nossa masculinidade e a paternidade negra? O que sinto é medo, medo de não ser como o meu pai, e novamente eu acabo por cair em um paradoxo, como vou me reinventar ou resgatar uma negritude que perpassa por quem me acusou muita dor!




REFERÊNCIAS


Site: https://www.geledes.org.br/o-segredo-dos-escravos-reprodutores/ acessado dia 06 de agosto de 2020.


HOOKS, B. Vivendo de amor. In: WERNECK, J. O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro: Pallas: Criola, 2000. p. 197.


*Palavra em iorubá Dàgalágbà - Tornar-se um homem adulto

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