• Rayane Penha

COLETIVO "UTOPIA NEGRA AMAPAENSE" REALIZA FALA NA CÂMARA DE VEREADORES DE MACAPÁ


Foto: Ianca Moreira


A convite da Vereadora Janete Capiberibe (PSB), no último dia 16 de dezembro, o coletivo amapaense "Utopia Negra" realizou uma fala de protesto na câmara municipal de Macapá. A fala foi feita pela integrante Luana Darby, 27 anos, mestranda em Ciências Sociais pela UNESP. A ação também foi acompanhada de outros integrantes do coletivo.


Foto: Ianca Moreira


Inicialmente o convite foi feito para divulgação das ações do coletivo relacionadas ao novembro negro, mas os ativistas aproveitaram o espaço de fala e expuseram o descaso com a população negra amapaense e cobraram ações de políticas públicas voltadas para as populações mais vulneráveis de Macapá.


Foto: Ianca Moreira


LEIA A CARTA MANIFESTO NA ÍNTEGRA:


CARTA-MANIFESTO: POR UMA OUTRA MACAPÁ/AMAPÁ POSSÍVEL (UTOPIA NEGRA AMAPAENSE)

Utopia Negra Amapaense, coletivo independente, progressista, autorganizado políticamente, autogerenciado, sem ligações com as elites políticas. Político e Ativista.


“Estamos cansados de saber que nem a escola, nem nos livros onde mandam a gente estudar, não se fala da efetiva contribuição das classes populares, da mulher, do negro e do índio na nossa formação histórica e cultural. Na verdade, o que se faz é folclorizar todos eles. E o que é o que fica? A impressão de que só homens, os homens brancos, social e economicamente privilegiados, foram os únicos a construir esse país. A essa mentira tripla dá-se o nome de sexismo, racismo e elitismo” (Lélia González (1935-1994), socióloga e ativista política)

Poderíamos falar de duas referências históricas do movimento negro - Zumbi e Dandara, que nos dão força para nossas lutas. Poderíamos falar aqui das muitas "riquezas" que o Amapá possui. Mas não estamos aqui para falar disso. Vimos falar aqui sobre “pobreza”. A miséria, a violência, a concentração econômica, que afeta a nossa população, composta majoritariamente por pessoas pretas, mulheres, jovens e periféricos de Macapá. O Amapá e sua capital, Macapá, acumulam os piores déficits humanitários do Brasil – pior cobertura de saneamento básico (90% (426 mil) da população macapaense não possui acesso à rede de esgoto, segundo o Instituto Trata Brasil, dados de 2019), piores taxas de mortalidade infantil (no Amapá, são 22,6 óbitos de crianças com menos de 1 ano, segundo o IBGE, dados de 2020) piores taxas de doenças endêmicas e doenças sexualmente transmissíveis (dengue, malária, doença de haff, hanseníase, sífilis, AIDS…), piores taxas de desemprego (71 mil desempregados, segundo o IBGE, dados de 2021) e tem a polícia que mais mata no Brasil (12,8 casos a cada 100 mil habitantes, maior que a média nacional de 2,7, segundo o Monitor da Violência - USP, dados de 2021), o que é motivo de orgulho para alguns, que é, na verdade, mais uma peça da tragédia social ao qual o Estado e o município conduziram a população.


Vivemos em um verdadeiro estado de “necropolítica”, gestão de vida e morte de pessoas pretas e periféricas. Executivo que “mata” ao invés de assumir suas responsabilidades. Isso é refletida pela falta de um manejo sério em políticas públicas, falta de representação política de pessoas pretas, mulheres, periféricas, indígenas e LGBTQIA+ no poder público e na política, que avança sob a guarda do projeto de exclusão do sistema capitalista, que avança intensamente sobre nossas florestas, nossas gentes, para retroalimentar suas políticas reformistas liberais e tirar cada vez mais da população trabalhadora. Esses espaços são negados a nós por séculos pela colonização, pelo machismo, pelo racismo e pelo capitalismo. Às mulheres, em especial, às mulheres negras e trans, são negadas sua existência social e política. É preciso fortalecer os trabalhos, a educação e a atividade política de mulheres pretas periféricas.

É necessário trabalhar para prevenir que mulheres sejam vítimas de violência doméstica, que atinge 54% das mulheres no Estado, segundo dados da Associação Brasileira de Justiça e Segurança Pública (2021). É preciso reconhecer o machismo e a masculinidade tóxica no cotidiano e lutar pela igualdade e equidade. Estamos aqui pelo direito à moradia digna, a produzir uma ecologia de saberes e uso da terra pela família agrícola, pelos povos indígenas e pelos povos tradicionais, no que concerne o direito à terra; enfrentar e denunciar a grilagem de terras, desmatamento e descarte de rejeitos provocados por empresários locais e multinacionais que operam na Amazônia e no Amapá, expondo e denunciado desastres ambientais em rios e lagos, como ocorrido em Pedra Branca do Amapari.


Denunciar a violência policial, que mata 50% da população jovem, segundo o Mapa da Violência (2021). Denunciar a cada dia o descaso com a população macapaense, denunciar a criminalização da cultura (rap, hip hop, skate, galera que escuta aparelhagem...), denunciar a criminalização do ativismo e da militância social e política progressista. O racismo ambiental e estrutural são violências sistemáticas que devem ser combatidas e erradicadas, assim como a falta de vontade política, que coloca nossa população em uma situação de extrema desigualdade (educação desigual, falta de acesso à água potável, energia, saneamento básico, à cidadania), (in)visibilidade e (in)existência (pessoas trans, pessoas em situação de rua), um processo de desumanização e negação da cidadania em ritmo constante. Exigimos medidas de fortalecimento da saúde psicossocial, saneamento, meio ambiente, igualdade racial e cidadania.


Nós existimos e resistimos. O acesso precário da população preta e periférica reflete o processo do genocídio, feminicídio e epstemicídio de moradores dos bairros de Macapá. A pandemia da Covid-19 acentuou as desigualdades e expôs as dificuldades que a população já vem sofrendo há anos. É preciso parar de dizer que a população tem “culpa” pela situação que vive, quando, na verdade, lhes foi negado o conhecimento de sua própria história, o acesso à informação e acesso aos direitos básicos, tratá-las como se fossem “lixo”. Temos fome, sede, enquanto nossos representantes têm “pobreza” de vontade política. As políticas ambientais precisam de um compromisso sincero. A Amazônia Legal sofre pelo esgotamento de recursos, pela miséria, pelo abandono, pelo projeto de poder político nas mãos de oligarquias e dos coroneis e o controle do acesso à informação pela imprensa local. Existem pessoas nessas florestas que estão morrendo, passando fome, sendo intoxicadas com a poluição de empresas, sem vacinação no braço, com suas terras sendo brutalmente retiradas pela “bancada da boiada, da bala, do boi e da bíblia”. Não aceitaremos o deboche de representantes sobre a tragédia cotidiana. Viver sob enchentes e sob o lixo é uma violência. Matar seus jovens e vangloriar o papel de “matadouro” das forças militares é uma violência. Não acalentar essas mães que perdem todos os dias seus filhos e filhas para a suposta “guerra às drogas” é uma violência. “Ninguém nasce bandido. ninguém Tudo é uma questão de oportunidade, o jovem da favela também quer um tênis novo, uma roupa nova” (Oliveira, Guizela (Advogada-OAB-PR), 2019). A falta de oportunidades vem com a falta de educação de qualidade, saúde de qualidade e qualificação, para que, por exemplo, previne que uma criança/jovem não tenha acesso às drogas, previna contra a violência, para que ela possa estar qualificada no mercado de trabalho. É preciso tratar o cidadão como cidadão e pessoa. Proteger e esconder casos de repressão e opressão tornam o Estado e município cúmplice desta tragédia social. Se “sobrevive” todos os dias. Não se vive "uma boa vida”. Rezamos para não ser mortos ou não perdemos pessoas próximas. Que as pessoas pretas, periféricas, quilombolas, indígenas, mulheres, LGBTQIA+, entre outros, sejam agentes desse outro mundo possível. Invocamos nossas ancestralidades para guiar o presente e conduzir um futuro cheio de justiça, existência e representação e democracia.


Macapá, 16 de dezembro de 2021.



Foto: Ianca Moreira


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