• UTOPIA NEGRA - ENEGRECER A POLÍTICA AMAPAENSE

Por uma leitura materialista e contra a patologização do fascismo!

Por: José Simão



Foto: Rafael Carvalho


Há muito tempo acompanho o presidente da república Jair Bolsonaro (muito antes de ocupar este cargo até). A figura de Jair Bolsonaro sempre foi vinculada a rótulos como “louco”; “maluco”; “retardado”; “psicopata” entre outros. Chegando a apresentar a sua figura, através de artes, com batas utilizadas em manicômios para representar um suposto transtorno mental.


Tais rótulos têm o papel de apresentar a indignação do povo com o atual presidente. Porém, a maior parte das vezes cai ligeiramente no capacitismo e desrespeito a própria Luta Antimanicomial, além de suprir o processo de despolitização que o Brasil vem sofrendo a tantos anos, principalmente quando a gestão de Bolsonaro é chamada de “desgoverno”. Mas como tais juras de ódio vindo da população podem provocar tal despolitização?

Bom, a partir do momento em que personalizamos a figura de Bolsonaro como causador de todo desastre e carestia presentes no país, estamos reconhecendo que o problema compete apenas a sua persona, quando na verdade o buraco é muito mais embaixo. Bolsonaro é apenas um pau-mandado (como chamamos no Amapá as marionetes) da burguesia, a expressão das intenções mais reacionárias desta. Bolsonaro é só uma figura, o bolsonarismo é um fenômeno de massas que apresenta mais um dos reais perigos que temos de enfrentar. O projeto de governo de Bolsonaro é um projeto fascista, portanto, anti-popular, racista e burguês! O fascismo é o freio de mão do liberalismo, que ao perceber uma ofensiva da classe trabalhadora mostra as caras para contê-lo, é um movimento de reação. ¹ O mais importante disso é que: o fascismo não é uma doença, não é uma questão moral (em termos de análise concreta da situação concreta) mas uma questão política de interesse de classe!



Breve nota explicativa sobre a particularidade da ascensão do Fascismo no Brasil, que surge mais como uma alternativa para a radicalização das políticas neoliberais que vem desde a era petista com suas alianças burguesas, enrijecem com o governo Temer e no período bolsonarista ganham amplitude de campo para toda e qualquer contrarreforma, seguida de um grande apoio dos grupos reacionários que formam a base do governo, como fundamentalistas cristãos, neoliberais, organizações de extrema direita e etc.

Nesse texto, e é bom se exclamar isso, pretende-se não limpar o sangue nas mãos de Bolsonaro, mas sim apresentar o tamanho real do problema e propor uma direção para futuras análises e ações.

E para início da conversa, dizemos que a política não deve ser psicologizada, pois corre o perigo de cair em erros na hora da leitura do real. Afim de tentar explicar brevemente o olhar materialista histórico e dialético para ajudar na compreensão do texto: este método nos serve para olhar o presente com uma perspectiva histórica, entender que o que está na nossa realidade hoje não apareceu de repente mas que é fruto do movimento da própria história. Algo objetivo e que está presente na realidade, investigando as condições materiais, sejam elas sociais, políticas ou econômicas, para perscrutar muito mais do que uma época afirma de si mesma e não se prender em conclusões básicas ou abstratas, como justificar a política através da moral com um discurso do tipo “o Brasil não vai pra frente porque os políticos são todos corruptos”, o materialismo vai além questionando a raiz desta corrupção, como funciona realmente a lógica da produção de riqueza e como esta influencia na superestrutura do país, o tornando subdesenvolvido, com uma superpopulação relativa e com uma classe trabalhadora superexplorada, mostrando quem lucra com isso e apresentando o porquê o Brasil realmente não vai pra frente e como a corrupção se torna uma ferramenta no meio de toda dominação burguesa de nosso país. É uma questão de análise concreta da situação concreta fugindo, o que permite analisar o modelo liberal através do que realmente é, fora do que é idealizado por seus principais representantes, assunto que logo mais será tocado no texto ².

Nesse caso, já com a visão materialista, observando as condições nas quais todo governo liberal se desenvolve: a ode a liberdade, que é falsa mas não tanto, pois essa tal liberdade é só para uma classe, ou é o nome de uma estátua em Nova York. O livre mercado é livre para as grandes empresas criarem seus monopólios. O sujeito da razão, vulgo ser humano, existe... e ele é branco, pois como aprendemos com Fanon os colonizados nem humanos são ³ .


Para aprofundamento do tema é recomendada a leitura de: A Ideologia Alemã, de Marx e Engels; O 18 de Brumário de Luis Bonaparte, de Marx; Introdução ao Estudo do Método em Marx, de José Paulo Netto; Se quiser Mudar o Mundo, de Sabrina Fernandes (P. 62-71).

Ver mais em: Pele Negra, Máscaras Brancas e Os Condenados da Terra, ambos de Frantz Fanon.

O liberalismo é uma filosofia política e um modelo de gestão sócio-econômica do capitalismo idealizado, que vem com as promessas de paraíso e de potencialização da natureza ambiciosa do ser-humano, mas que na realidade, no plano material, não passa de uma ideologia que justifica a dominação burguesa dos meios de produção, exploração e opressão da classe trabalhadora, tanto em escala local como mundial, como percebemos com as mais de 700 bases militares estadunidenses ao redor do mundo , o imperialismo ianque inspira essa tal liberdade, não é mesmo? +

Além disso, o próprio neoliberalismo em sua gênese sempre contou com a marra de querer se instaurar enquanto razão e por isso deveria ser seguido, qualquer questionamento ou crítica voltado à este seria algo que fugisse da racionalidade e entrasse na infantilidade ou “loucura”. Isso vem desde os primeiros escritos da Sociedade de Mont Pelerin, um dos berços do neoliberalismo, muito presente também em Hayek (um dos seus principais expoentes) com o Império das Leis as quais deviam ser seguidas, se utilizam de valores morais pra justificar a suposta racionalidade deste modelo. Ou seja, todo um trabalho na teoria pra tentar justificar que “se não for neoliberal está errado”. Inclusive é pertinente a citação do filósofo brasileiro Vladimir Safatle, no livro Neoliberalismo como Gestão do Sofrimento Psíquico (2021), sobre esta condição do neoliberalismo, que apresenta até mesmo como se desenvolve o modelo neoliberal, que é expandindo a esfera econômica a todas as esferas da sociedade, ainda se utilizando da moral, da razão, ou da “real-politik” para deslegitimar as críticas:



A autonomia da economia, sua posição de discurso de poder ilimitado na definição das orientações de gestão social, caminha juntamente com a legitimação cada vez mais clara de suas injunções como uma psicologia moral, ou seja, como um discurso no qual se articulam injunções morais e pressuposições a respeito de desenvolvimento e maturação. O que nos leva a afirmar que o império da economia é solidário da transformação do campo social em um campo indexado por algo que poderíamos chamar de “economia moral”, com consequências maiores não exatamente para os modos de produção e circulação de riqueza, mas para a eliminação violenta da esfera do político enquanto espaço efetivo de deliberação e decisão, com a redução da crítica à condição de patologia.



https://super.abril.com.br/coluna/oraculo/quantas-bases-militares-os-estados-unidos-tem-fora-de-seu-territorio/

Vendo o liberalismo desta forma e o neoliberalismo no presente texto, fica claro o sangue nas mãos desta destrutível ideologia que toda vez que aplicada, seus intelectuais falam que “liberalizou pouco”, para justificar os erros quando na verdade é apenas a realidade mostrando a falha neste modelo e não só nele como no próprio capitalismo, que é basicamente uma locomotiva rumando ao precipício e a triste notícia (ou nem tanto, pois tal notícia muitas vezes desperta para a luta) é que estamos dentro dela, como disse em meu outro texto, o único freio de mão é a revolução, em outras palavras, socialismo ou barbárie e a barbárie já está se alastrando.

Não podemos tornar alheio ao governo de Bolsonaro seu próprio projeto de governo, ao fazer isso despolitizamos no sentido de tirar a luta contra o capital de cena e focar apenas na figura de Bolsonaro, como se ele não fosse produto do próprio sistema capitalista. Se chamamos de desgoverno o governo Bolsonaro por seu projeto genocida estamos fazendo exatamente isso, se patologizar a política o chamando de louco, estamos fazendo isso!


Nunca se tratou de incompetência, má gestão, loucura e coisa e tal. Sempre se tratou de Neoliberalismo! E a gestão de Jair Bolsonaro é a gestão que a burguesia melhor conseguiu se utilizar para potencializar seu caráter sanguinário. Pois nossa burguesia passa muito bem por este momento de crise, lucrando cada vez mais em cima dos corpos empilhados. Não são eles que têm de esperar na fila do açougue à procura de ossos mesmo, certo? Desde sua gênese nossa burguesia serve para exportar recursos primários para os países centrais do capitalismo (leia-se EUA e grande parte da Europa) e manter a lógica de subdesenvolvimento aqui, pois é lucrativo para o 1% mais rico o preço da força de trabalho lá embaixo, com cada vez mais direitos trabalhistas reduzidos, o extermínio da superpopulação relativa, que é majoritariamente negra e pobre através de bala ou tornando o seu plano de saúde não ficar doente, como diz criolo.


O que acarreta até mesmo no abandono da própria história do Brasil que é feita com sangue da classe trabalhadora, principalmente negra, que vem sofrendo esse processo de extermínio desde sua gênese. A força motriz da formação social brasileira é o racismo estrutural, que ganha nova forma principalmente no período de desenvolvimento do capitalismo dependente brasileiro. Se reduzirmos isso apenas a um problema de gestão estamos nos cegando para o porvir da luta. Derrubamos Bolsonaro, mas e ai? Esperamos ansiosamente outro golpe e uma nova ascensão do fascismo? Continuamos aturando e ficando apenas na base da resistência contra as políticas neoliberais que cada vez mais mercantilizam nossa vida e aprofundam as condições de exploração e opressão? Aceitamos de forma acrítica uma chapa de governo “progressista” cujo vice representa os mesmos ideais do projeto burguês, como Alckmin?

Este debate é extremamente necessário já que o principal candidato da esquerda, o ex-presidente Lula, apresenta liderança nas pesquisas de intenção de voto. Se já apresenta liderança por si, qual sentido formar uma conciliação na sua chapa? Parece que não aprendeu nada com Temer. Se é o que nos resta de opção (nas urnas, ao menos) temos de incendiar este debate, pois de que adiantará um governo dito progressista que não revogue o teto de gastos, reforma trabalhista, da previdência e queira transformar a Caixa numa empresa mista? O debate é pertinente pois a pressão tem de vir das ruas, da base, pois é justamente onde se vê o sofrimento advindo dessas contrarreformas neoliberais, mesmo entendendo as limitações da gestão da república no capitalismo, o debate tem de ser recrudescido e levado a sério. Daí a importância de não se patologizar a política e alienar do fascismo o que lhe é orgânico, se não caímos na armadilha de trocar o mesmo pelo igual mas com uma nova roupagem.


Para uma luta séria devemos ver além do Fora Bolsonaro, não esquecendo a sua importância, mas focar também no real inimigo: o capital. Enquanto nossa luta for norteada por paladinos da democracia burguesa que acreditam na derrubada do fascismo através das urnas não avançaremos em nada, pois sairá bolsonaro e entrará outro igual, talvez mais comportado, educado ou até servindo como uma falsa representatividade para minorias e as desgraças continuarão a ocorrer. É claro que a derrubada deste sistema burguês não acontece do dia pra noite, mas apenas com movimento de rua organizado e bem direcionado conseguiremos saldo realmente positivo para que nosso povo pare de sangrar, é uma situação radical que a muito tempo precisa da radicalização da classe trabalhadora. Não mais resistência, mas sim uma ofensiva forte vinda da base!


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